Refutação a duas falácias da propaganda burguesa

31 out

Por Augusto Mazdaki

Existe um mito popular amplamente conhecido acerca da alegação de que os capitalistas têm direito à compensação, tal como à mais-valia produzida pelo trabalho alheio, simplesmente pelo fato deles assumirem “riscos” ou pelo fato de que eles detêm as ideias originais para a produção de bens de consumo. Um segundo mito diz que nós não podemos questionar o capitalismo, uma vez que sem ele nosso estilo de vida contemporâneo não seria algo possível. Estas ideias não são exclusividade de libertários radicais ou seguidores da Escola Austríaca, pelo contrário, são ideias aceitas inclusive por pessoas que reconhecem que há muitos problemas inerentes ao sistema capitalista.

A teoria do “Risco do Empreendimento”

Em primeiro lugar, consideremos a questão do “risco”. Quem assume mais riscos, o proletário ou o capitalista? O capitalista é alguém que possui recursos capitais, pelo menos o bastante para investir em projetos de indústria ou comércio. É disso que nós falamos quando discutimos o fato dos capitalistas assumirem riscos — eles investem seus fundos em algum empreendimento industrial ou comercial com a esperança de obter um bom retorno para seus investimentos. O que acontece quando um capitalista assume um risco e perde? Na maioria das vezes ele não perderá tudo, a menos que tenha sido muito insensato na administração de seu dinheiro e desleixado em seus investimentos. E mesmo que isso ocorra, o que de tão ruim poderia acontecer? Resposta: ele precisaria trabalhar por seu sustento, como todas as outras pessoas. Mas que terrível destino!

Agora, pensemos no outro lado; vamos analisar o risco assumido por um trabalhador. O trabalhador é forçado a uma situação de vida ou morte, uma vez que o proletariado não possui meios de subsistência senão sua própria força de trabalho. Ele, o trabalhador, é forçado, pela necessidade, a trabalhar para o capitalista sob as suas condições, afim de que receba o dinheiro necessário ao seu sustento. Assim sendo, o trabalhador muitas vezes é forçado a pôr em risco sua saúde física e mental trabalhando por longas horas sob condições extremamente perigosas, tais como a exposição a fluidos e gases tóxicos, maquinaria pesada, ruídos, etc.

Não fosse o bastante, o trabalhador também está assumindo um risco quando coloca seu destino nas mãos da empresa em que trabalha na esperança de que ela não lhe dê as costas e descarte-o. Isto tem um efeito especialmente devastador em tempos de crise, quando o desemprego grassa a nível nacional. Os trabalhadores muitas vezes são obrigados a mudar de residência e abrir mãos de suas vidas para poder achar um emprego decente. Quando eles são descartados logo após sua mudança, todos os seus planos vão por água abaixo. O capitalista, em forte contraste, corre o risco de, na pior das hipóteses, ser reduzido à condição do trabalhador. O trabalhador, obviamente, corre riscos muito maiores. Não obstante, sua compensação é infinitamente menor que a do capitalista, fato que refuta a argumentação de que o “risco” é o que confere a alguém o direito à riqueza.

O capital, em um sistema capitalista, é geralmente acumulado através da mais-valia, isto é, da exploração da força de trabalho dos trabalhadores. Aliás, o que dizer daqueles capitalistas que fazem investimentos seguros, procurando sempre por investimentos que garantirão retornos lucrativos? Deveriam eles ser penalizados ou taxados por empreenderem investimentos que não lhes oferecem risco algum? Mas, por outro lado, como tais investimentos poderiam ser arriscados, uma vez que os capitalistas mais ricos podem sempre confiar nos governos que controlam, que irão prontamente socorrê-los caso eles falhem? Tais bancos e empresas não assumiram risco algum ao investirem seu capital, uma vez que o governo prontamente os compensará — à custa do trabalhador contribuinte, é claro — por sua eventual falha.

“O capitalismo lhe deu tudo!”

Em discussões acerca do tema capitalismo, ouve-se frequentemente um tipo de argumento que reduz o discurso anticapitalista e antiimperialista ao nível de simples lamentação: “Você reclama tanto do capitalismo, mas é graças ao capitalismo que você tem um computador, uma televisão, roupas…” e assim por diante.

Tal alegação implica essencialmente na afirmação segundo a qual nós não temos direito nenhum de assumirmos posições anticapitalistas porque é o capitalismo que, alegadamente, nos proporciona um melhor padrão de vida. Há, porém, muitas falhas nessa argumentação. Em primeiro lugar está o fato de que o capitalismo não proporciona um estilo de vida confortável para a imensa maioria da população mundial. Mais da metade da população do mundo — cerca de 3 bilhões de pessoas — sobrevive atualmente com rendas inferiores a dez dólares ao dia. Poderíamos nós dizer a um negro sul-africano que ele não tem o direito de reclamar do sistema segregacionista do Apartheid simplesmente pelo fato do sofrimento dos negros ter sido infinitamente maior durante a escravidão? Sim, a escravidão foi incomparavelmente pior que o Apartheid — assim como o feudalismo é incomparavelmente pior do que o capitalismo —, mas isso não significa que a sociedade sul-africana esteja acima das críticas e da condenação moral por parte de qualquer pessoa bem-pensante. Assim, o uso desta mesma lógica pode também implicar que, simplesmente por causa das inúmeras invenções que datam da época do feudalismo — invenções das quais nós continuamos a fazer uso ainda hoje —, nós não devemos criticar o sistema feudal composto por servos, reis, senhores e o clero.

Podemos também levar em consideração que, na maioria dos países outrora socialistas, o padrão de vida caiu, muitas vezes dramaticamente, com duríssimas consequências para a maior parte das populações locais. É fácil observar as cidades contemporâneas do Leste Europeu e notar as pessoas portando caros telefones celulares, os cyber-cafés, as boates e restaurantes modernos e concluir que se trata de uma melhora em relação às sociedades socialistas que lá outrora existiram. Entretanto, sejamos honestos, muitas destas inovações, que fazem com que a vida nestas sociedades seja pelo menos um mínimo suportável — tais como seus lindos celulares — não existiam nem mesmo nas sociedades capitalistas mais avançadas à época dos últimos suspiros da URSS e do Bloco Oriental — e, ainda assim, poderiam existir mesmo que tais países continuassem a seguir o modo de produção socialista ainda hoje. Estes países agora importam muitas mercadorias de luxo e bens de consumo que estão fora do alcance da imensa maioria da população, seja a nível doméstico ou mundial.
Na Moscou dos dias de hoje, as pessoas trabalham em jornadas de trabalho extenuantes apenas para obterem um minúsculo pedaço do bolo capitalista, ao ponto que muitas pessoas não são capazes de reservar tempo nem mesmo para o lazer. Em contraste, o governo socialista soviético — mesmo os governos corruptos e revisionistas de Khrushchev e Gorbatchov — fez questão de assegurar que os trabalhadores tivessem pleno acesso ao emprego assalariado, bem como ao lazer e à cultura e proporcionou aos trabalhadores os meios para que desenvolvessem seus vários talentos. Quando se observam os aspectos negativos da restauração capitalista, tais como a queda brusca na taxa de natalidade, aumento da mortalidade infantil, privatização e deterioração dos serviços públicos, emigração em massa, corrupção, dependência química, narcotráfico, queda na expectativa de vida, violência étnica e racial, exploração sexual, tráfico humano e um frágil sistema de previdência social, fica claro que ainda que se diga que os países capitalistas do ocidente tenham um padrão de vida mais alto comparado ao padrão de vida do antigo e extinto Bloco Socialista, o padrão de vida destes países orientais é, hoje em dia, para a esmagadora maioria, incomparavelmente pior.

Pior de tal maneira, que um sem número de artigos provenientes de fontes conservadoras e insuspeitas de paixões comunistas, tais como The Wall Street Journal, The Economist, The Dayly Telegraph e a AFP publicam pesquisas recentes que indicam um crescente descontentamento com o capitalismo por parte de uma significativa maioria da população e um número cada vez maior de pessoas que dizem que a vida sob o socialismo era muito melhor em praticamente todos os aspectos. Assim sendo, dizer que “o capitalismo hoje em dia nos proporciona um mundo melhor para viver” é uma desfaçatez, uma vez que este proporciona um padrão de vida desumano para a maior parte das pessoas vivendo sob seu jugo.

Se analisarmos o argumento segundo o qual nós deveríamos ser gratos ao capitalismo por ter produzido todos os bens dos quais fazemos uso hoje, veremos que tal argumento também é ilógico, uma vez que o capitalismo tem sido o sistema dominante por mais de dois séculos e, por esta razão, teve tempo de se desenvolver, diferentemente dos primeiros estados socialistas. A alegação de que não podemos criticar o capitalismo pelo fato de hoje em dia dependermos dele é como atacar o capitalismo de uma perspectiva feudalista, alegando que o capitalismo não poderia ter sido capaz de quaisquer proezas sem o advento do feudalismo. Como podem os partidários do capitalismo cantar louvores ao “dinamismo” e à “inovação” capitalista, uma vez que grande parte de tal inovação é baseada em tecnologias ancestrais, datadas de séculos — e, em alguns casos, até milênios — desenvolvidas por sociedades que existiram muito antes do desenvolvimento da economia baseada na propriedade privada dos meios de produção? Estaria o capitalismo em dívida com a teocracia do Califado Islâmico, no âmbito do qual foi feita uma enorme quantidade de invenções e descobertas cientificas?

A natureza de classe e origem desses argumentos

Tais mitos persistem como lendas urbanas. Esses mitos são, muitas vezes, produtos de diversas usinas de ideias e organizações de direita, que permeiam os livros, a televisão e os programas de rádio com seus pontífices das letras, cujo trabalho é tentar convencer os homens e mulheres da classe trabalhadora a alinharem-se com a burguesia ao invés de perseguir seus próprios interesses enquanto classe.

Devido ao fato de que há uma contradição inerente à existência destas duas classes — no âmbito da qual o que beneficia uma classe vem à custa da outra —, os liberais têm pouca ou nenhuma escolha senão recorrer a argumentos parvos em favor de seu sistema excludente e socialmente estratificado. Não é de se estranhar que algumas figuras acadêmicas de direita parecem preferir manter seu foco em discursos superficiais, criando estatísticas e falsificações históricas e comumente utilizando-se de apelos emocionais — reservando atenção especial para o medo.

Conclusão

A alegação de que um capitalista tem o direito de lucrar sobre o trabalho alheio simplesmente pelo fato dele assumir um suposto “risco” simplesmente não resiste a uma análise. Desta forma, a direita hoje em dia parece muito mais interessada em convencer nossos irmãos trabalhadores de que eles estão sob o risco de uma “ditadura marxista” nas mãos de “petralhas”, de serem roubados de seus postos de trabalho por migrantes nordestinos, de que seu direito à religião e à propriedade está em risco, entre outras coisas absurdas. Nós devemos, obviamente, atacar e expor tais mentiras, uma vez que se nós atacarmos os sustentáculos desses mitos, que são utilizados como uma ferramenta ideológica para justificar o capitalismo aos olhos do trabalhador, poderemos auxiliar na edificação de uma consciência de classe entre nossos companheiros trabalhadores. Uma vez que a consciência de classe se torna forte o bastante e a classe trabalhadora está completamente consciente de seus interesses enquanto classe, nem mesmo as lamúrias, a agitação e as conspirações de um milhão de Olavos de Carvalho serão capazes de desviar a classe trabalhadora de seu caminho rumo a um verdadeiro movimento de massa.

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