O argumento acerca da “Natureza Humana”

19 dez

Por Augusto César Mazdaki

Vamos dar início à nossa linha de raciocínio com algumas palavras elogiosas ao onipresente argumento da natureza humana. Sim, tal argumento pode ser logicamente falacioso e, na maioria das vezes, absolutamente infundado, mas o que lhe falta em razoabilidade é compensado por sua persistência. Contudo, o argumento da “natureza humana” carrega prestígio suficiente para ser utilizado por figuras de renome do meio acadêmico e economistas respeitados. É uma façanha bastante impressionante para uma ferramenta de argumentação tão medíocre, ridícula e falaciosa. Vamos à nossa análise.

O argumento da natureza humana pode assumir diversas formas, mas o modelo mais comum é este: “Não se pode tentar obter um resultado A, porque a natureza humana é B. Não se pode mudar a natureza humana”.

Em primeiro lugar, apesar do argumento acerca da natureza humana ser amplamente utilizado, deve-se notar que ninguém nunca conseguiu provar a existência de uma “natureza humana” constante, estática, imutável e universal. Há, sim, alguns traços que nos são verdadeiramente universais e imutáveis e que podem ser encontrados também em animais irracionais, como por exemplo, nosso instinto de sobrevivência e a nossa necessidade de reprodução. A “armadilha”, no entanto, é o processo por meio do qual se faz um contraponto à forma mais comum do argumento da natureza humana, a saber, aquele que diz que os seres humanos são criaturas inerentemente egoístas ou movidas acima de tudo por interesses pessoais, sendo, dessa forma, incapazes de manter uma sociedade baseada em princípios igualitários.

Argumenta-se, na maioria das vezes, os aspectos mais frágeis desse argumento, citando todos os tipos de exemplos de cooperação humana e de comportamento altruísta. Este estilo de contra-argumentação é bastante frequente, mas pode-se ir além. O argumento da natureza humana é quase tão realista e legítimo quanto a alegação de que a Terra é quadrada. Tal argumento deve não apenas ser contrariado, mas também rechaçado e levado ao chão.

“O socialismo não funciona porque os seres humanos são egoístas por sua própria natureza e estão sempre em busca do ganho pessoal. É por essa razão que o capitalismo sobrevive e, é também por essa razão que um sistema melhor do que o capitalismo é algo impossível, pois em uma economia de mercado, onde domina o capital, os indivíduos buscam o ganho pessoal, e a sociedade como um todo se beneficia.”

O trecho acima não se trata de uma citação, mas uma formulação razoavelmente precisa do argumento com o qual estamos lidando, argumento esse que, ao mesmo tempo em que ataca o socialismo, contém um elemento subjacente de apoio ao capitalismo, que, conforme sua linha de raciocínio, representa um sistema em que a busca do lucro pessoal gera resultados positivos para todos. Obviamente, a forma em que o argumento se manifesta pode variar, mas antes que se possa fazer a acusação de que este é um argumento que serve àqueles que o utilizam como uma espécie de espantalho, tenhamos em mente que a questão central é a utilização do argumento acerca da natureza humana como uma ferramenta para atacar o socialismo.

Não é necessário dizer que a refutação depende do argumento utilizado por determinado oponente, mesmo apesar do fato de que o argumento supracitado é um exemplo clássico da argumentação acerca da natureza humana.

Interesses pessoais?

O argumento em questão, em primeiro lugar, é totalmente falacioso. Trata-se de um apelo à natureza — em suma, é como dizer a uma pessoa que acaba de fraturar um osso para que não utilize uma tipoia ou tome analgésicos, afinal, não é desta maneira que a “natureza” funciona. Ora, não há nenhuma evidência científica que fundamente a alegação acerca da existência da “natureza humana” como tal. Se uma forma de natureza humana estática, imutável, universal e, portanto, previsível realmente existisse, psicólogos, bem como outros cientistas, teóricos e especialistas dos campos científicos da psicologia, da psiquiatria e da neurociência, não necessitariam de tantos anos de pesquisa contínua para compreender o comportamento humano e as diferentes formas, variações e desvios, patológicos ou não, assumidos pela mente de diferentes indivíduos, que podem ou não ser um produto social, variando sempre de caso para caso.

Ademais, é necessário que se sublinhe o fato de que tanto o comportamento quanto a prática social dos seres humanos mudaram dramaticamente com o passar do tempo. Se os nossos mais antigos ancestrais dos tempos pré-históricos tivessem sido movidos pelo interesse individual em detrimento da necessidade coletiva, nossa espécie jamais teria sobrevivido. A vida para os primeiros seres humanos se traduzia numa encarniçada luta diária: se algum indivíduo colocasse o seu interesse pessoal acima do interesse coletivo de seu clã ou tribo, este poderia ser morto pelos demais, morrer de fome, ou até mesmo ser canibalizada pelos demais membros de seu grupo. Desta forma, a busca pelo interesse individual em detrimento do coletivo poderia, em um dia, resultar em um estômago um pouco mais satisfeito, mas acarretaria na morte certa, em outro.

Os defensores do capitalismo liberal, por muitas vezes, alegam que exemplos de comportamento abnegado ou altruísta tratam-se de “ilusões de ótica”: na visão de tais liberais, tal indivíduo, aparentemente abnegado e altruísta, pode ter sido movido por razões egoístas e objetivos pessoais — dos quais, algumas vezes, nem mesmo ele deu-se conta — e tais objetivos são a verdadeira força motriz por trás de um ato de altruísmo.

Tais liberais são, de fato, deveras familiares à tática de projetar a lógica do raciocínio mercantil à população como um todo e, ao fazerem isso, eles obscurecem a visão de classe, maquiando a realidade sob uma ótica no âmbito da qual todos estão previamente condicionados a enxergar as coisas pelo mesmo ângulo e pensar da mesma forma, quer sejam capitalistas, quer sejam trabalhadores.

A apelação à natureza humana é um engodo

No início do artigo, foi dito que a natureza humana é, muitas vezes, produto do discurso de intelectuais liberais e figuras de renome no meio acadêmico. Uma coisa muito interessante, que o leitor provavelmente já deve ter notado, é que este argumento não é utilizado apenas por liberais e conservadores, mas até mesmo por personalidades que gozam de prestígio no seio da ala mais “progressista” da vertente principal do cenário político, isto é, a “ex-querda” pós-moderna. De fato, ouve-se muito este argumento vindo de “esquerdistas” aparentemente “radicais” e tais elementos “diz-querda” fazem grande uso do argumento quando entram em debate com comunistas, socialistas, ou qualquer outra vertente política que declare abertamente buscar a supressão total ou parcial do capitalismo em benefício de um sistema mais justo e igual.

Desta forma, a ladainha liberal, quer seja “diz-querda”, quer seja abertamente “Austríaca”, é um notável exemplo de desonestidade intelectual e covardia moral. “Eu concordo que há, de fato, um problema com nosso sistema capitalista e que nós realmente precisamos de reformas, mas não se pode mudar a natureza humana”, dizem eles, lavando de suas mãos qualquer senso de responsabilidade comunitária ou social, e, assim, se recusando a renunciar às suas aspirações oportunistas ocultadas sob uma doce cobertura caramelada de sublimes promessas idealistas.

Uma analogia

Se existe um sistema que exige um virtuoso senso de abnegação e altruísmo, certamente é este liberalismo burguês que atende pelo nome de “democracia liberal” no Brasil e no mundo contemporâneo. Tal sistema confia às burguesias industriais e ao capital rural a tarefa de gerar empregos e pagar impostos, dando sua contribuição àquela sociedade que tanto lhe deu. O socialismo, por sua vez, não exige que sejamos altruístas. Ele tampouco exige que abdiquemos de nossos interesses particulares. De fato, é o capitalismo que exige que a imensa maioria da população seja extraordinariamente altruísta, ao ponto de que esta abdique suas mais modestas ambições pessoais em prol do lucro de outrem.

No sistema capitalista a produção é socializada, ao passo que o lucro é privatizado. O trabalhador concede, de forma abnegada, o seu tempo, a sua energia, o seu esforço e  sua criatividade a um grande custo pessoal, o que significa que ele deve necessariamente vender seu tempo, energia, esforço e criatividade no mercado de trabalho por um preço muito abaixo do valor que eles realmente têm. Vamos ilustrar este fato com uma analogia bastante útil. Suponhamos que temos um grupo de quatro pessoas famintas que decidem preparar um almoço bastante farto. Cada uma delas tem um interesse pessoal investido nesta refeição e, apesar das várias tarefas que lhes são divididas, cada uma dessas pessoas deposita o melhor de seu esforço em seu trabalho, pois esperam que os outros façam o mesmo. Se um deles queimar o arroz, outro pode deixar a carne semicrua e, na medida em que todos querem desfrutar desta refeição em sua plenitude, é do interesse pessoal de cada um coordenar seus esforços em conjunto e utilizar o melhor de suas habilidades para realizar suas tarefas individuais. O altruísmo não é a força motriz dos esforços que estamos narrando nesta analogia. Estas pessoas estão com fome, logo, trabalham em conjunto para preparar sua comida. O interesse particular de cada um está sendo atendido e a cooperação e o esforço máximo, de acordo com as habilidades de cada um, é o que serve a tais interesses. Esta analogia representa o socialismo, embora de maneira bem simplificada.

Imaginemos, pois, a mesma situação, mas funcionando de acordo com a práxis capitalista. Um determinado homem nunca está faminto, pois há outras pessoas que o alimentam muito bem em troca de umas poucas sobras, conforme mandam suas necessidades. Quando chega a hora de preparar uma refeição, o quinto homem, aquele que nunca está faminto, não realiza qualquer trabalho. Ele é o proprietário da cozinha e dos utensílios lá utilizados; logo, quaisquer que sejam os alimentos lá preparados, embora não sejam produzidos por suas próprias mãos, automaticamente tornam-se seus. Muitas vezes os trabalhadores preparam para o seu empregador pratos que eles nunca poderão sequer tocar. Eles nada ganham além daquilo que o quinto homem acha que deve lhes auferir como forma de compensação pelo seu trabalho. No mundo real, onde nós podemos vivenciar uma relação de forças deste tipo, as condições são muito piores. O trabalhador se aliena por muito pouco e raramente questiona tais relações de força. Mas que paciência, altruísmo e filantropia demonstra o trabalhador comum todos os dias, tão vigorosamente e sem que ao menos se dê conta disso! A lição em tudo isso é que o socialismo não exige dos trabalhadores que sejam sempre altruístas e que trabalhem incessantemente pelo bem comum. Uma vez que o objetivo principal de uma revolução socialista é a abolição da propriedade privada da terra e a apropriação dos meios de produção pela classe trabalhadora organizada na forma do Estado operário, nós devemos dizer que o objetivo da revolução é que a realização das ambições dos trabalhadores e que os mesmos façam precisamente aquilo que serve aos seus interesses, não só a nível social, mas também a nível pessoal. A analogia acima descrita compara a produção e distribuição da riqueza sob os modelos socialista e capitalista; torna-se, portanto, óbvio que o primeiro serve de forma muito melhor aos interesses, tanto individuais quanto coletivos, de todas as partes envolvidas. Os interesses particulares dos trabalhadores não são servidos pela concentração da riqueza nas mãos dos poucos que podem dar-se o luxo de recusar-se a trabalhar, nem tampouco em um sistema onde se é obrigado a produzir um determinado montante de riqueza para outrem, ao passo que a compensação é apenas uma fração minúscula, irrisória da riqueza produzida.

Conclusão

Aqui, nós dissecamos o desprezível argumento da natureza humana e vimos que ele se torna totalmente discutível, uma vez que uma análise bem orientada nos mostra que a práxis e o modo socialista de produção não exigem um senso sobre-humano de generosidade ou altruísmo. De fato, a revolução socialista obtém seu sucesso quando a classe trabalhadora persegue seus próprios interesses, coletiva e individualmente, lutando, pois, por sua causa. Tal revolução exige que a classe trabalhadora se desvencilhe de sua “caridade” e de seu “altruísmo”, pelos quais ela doa seu tempo, sua energia, sua saúde e sua força física e mental àqueles que optaram por não trabalhar, vivendo apenas de colher todo o lucro da produção gerada pelos trabalhadores.

O argumento falacioso e metafísico que apela a uma suposta natureza humana constante, estática e eterna existe já há muito tempo e não demonstra sinais de cansaço. Talvez o único fato permanente a respeito deste tipo de retórica é o fato de que argumentos como este, apesar de descreverem uma natureza eterna, estática e universal de formas diferentes, a depender do período histórico em que é aplicado, podem ter existido pela maior parte de nossa história. Quem poderá dizer quantas práticas bárbaras foram justificadas sob o pretexto de serem meramente inerentes à natureza humana? Nós vimos aqui que tal argumento não só é ridículo e facilmente refutável, como também é irrelevante face à ciência marxista.

Os maiores revolucionários da história moderna jamais pregaram aos trabalhadores para que abrissem mão de suas posses ou de seus interesses pessoais. Pelo contrário, eles exortam os trabalhadores a enxergarem o quão antagônicos são os seus interesses em relação àqueles de seus exploradores, e para que se levantem e tomem, por meio da violência revolucionária, aquilo que é seu por direito, isto é, a riqueza por eles criada.

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