Documentário “Acerca da Cana” denuncia feudalismo e luta pela terra em Pernambuco

10 jan

O documentário “Acerca da Cana” mostra a situação dos trabalhadores na Usina Tiuma, em São Lourenço da Mata, cidade localizada a 16 km de Recife, Pernambuco. Em troca de uma posse de dois a três hectares nas terras da usina, os camponeses trabalhavam no corte da cana em períodos de safra, o que fazia a usina economizar com os custos dos transportes, da feita que eram nas próprias terras da usina onde os cortadores de cana viviam. Após a valorização do preço da cana, contudo, aqueles que trabalhavam nessas terras eram constrangidos a deixá-las, dado que tais terras ocupadas pelos camponeses poderiam servir para a plantação de mais cana.

Verificando tal situação, parece algo extraordinário, uma peculiaridade da formação histórica brasileira, que mesmo em terras em propriedade de grandes sociedades anônimas capitalistas, não se apliquem relações de produção capitalistas, mas relações de produção feudais ou semifeudais, pré-capitalistas – diversas modalides de renda-trabalho ou renda-produto e demais formas de coação extra-econômica sobre os trabalhadores, como a meação, terça, quarta, sistema de peonagem, barracão, etc.

Nos dias de hoje, sob o constante aliciamento dos usineiros, verdadeiros senhores de terras cujas propriedades ultrapassam 28 mil hectares, as pouquíssimas famílias camponesas que resistiram aos ataques lutam pela posse de seus minúsculos minifúndios de 2 ou 3 hectares de terra, indo de encontro aos latifundiários que lutam para manter intocável o monopólio secular da terra. Dona Maria, camponesa que há décadas reside no local e herdou meio hectare de terra de seu pai, que trabalhou nela durante mais de 60 anos, denuncia com audácia os ataques e o aliciamento dos jagunços a serviço dos usineiros. Tal situação deplorável denuncia, por um lado, a persistência e a coexistência do atraso na sociedade brasileira, de outro, o fracasso do programa de “reforma agrária” do Estado burocrático burguês-latifundiário e a necessidade da Revolução Agrária que liquide a exploração de séculos do latifúndio e distribua as terras aos camponeses sem terra ou com pouca terra, tendo como princípio a consigna “terra para quem trabalha nela”.

COLETIVO BANDEIRA VERMELHA

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21 Respostas to “Documentário “Acerca da Cana” denuncia feudalismo e luta pela terra em Pernambuco”

  1. Josue Freitas 10 de janeiro de 2013 às 12:25 #

    Ola, improtante a denúncia. Mas feudalismo em 2012 no Brasil? Pré-capitalismo? A antiga definição que qualificava o caréter das economias coloniais como feudal servia de base para as propostas políticas que apontavam à necessidade de uma revolução burguesa, limitando a luta revolucionária do proletariado latino-americano. Vamos repetir os erros teóricos do passado? São sim relações de servidão, mas dentro da acumulação capitalista. Senão confundimos a realidade com os conceitos.

  2. Celso Araujo Monteiro 10 de janeiro de 2013 às 15:14 #

    Caro Josue Freitas, me permita responder seu questionamento:

    É realmente uma lástima que, em pleno 2012, século XXI, ainda existem sobrevivências do feudalismo tanto no Brasil quanto em vários outros países do mundo (principalmente nos semicoloniais), como Índia, Filipinas, Turquia, Argentina, Bolívia, etc. Tais “propostas políticas” citadas por você jamais se constituíram como “erros”, da feita que elas jamais foram aplicadas na luta revolucionária do povo brasileiro. Somente em escassos momentos da trajetória do Partido Comunista do Brasil, por exemplo, foi aplicada a aliança revolucionária entre operários e camponeses, e mesmo quando foi aplicada não houve a generalização de tal aliança por todo o país. Jamais, na história dos comunistas, foi aplicada corretamente a estratégia da Revolução democrática antiimperialista e antifeudal.

    Mesmo que tal Revolução seja, no início uma Revolução agrária e tenha um conteúdo burguês, dado que a questão principal é a liquidação do latifúndio e a distribuição das terras para os camponeses sem terra ou com pouca terra, é uma Revolução democrática de novo tipo, liderada pela classe operária, e que marcha de maneira ininterrupta para a Revolução socialista, não pertencendo portanto à velha categoria das Revoluções burguesas do século XVIII e sendo, atualmente, parte integrante da Revolução proletária mundial. Não se trata de extirpar as relações pré-capitalistas para desenvolver o capitalismo no campo ou coisa do tipo, mas de liquidar todo o capitalismo burocrático, todo imperialismo e feudalismo, e marchar de maneira ininterrupta para a construção do Socialismo em nosso país.

    • Josue Freitas 10 de janeiro de 2013 às 15:51 #

      Prezado Celso,

      Como a classe operária vai dirigir uma revolução de conteúdo burguês em 2013 no Brasil? E a grande massa de operários urbanos, fica como nesse programa?

      Está equivocada a ideia de que a estrutura fundiaria brasileira foi um entrave para o desenvolvimento capitalista no Brasil. Essa é uma consequência direto do argumento central da tese sobre o “feudalismo” ou o semicolonialismo” brasileiro, ainda defendida hoje pelo reformista PCdoB.

      A relevância da classe camponesa que existe no Brasil do agronegócio é menor que a do proletariado rural (boias-frias).

      Os cortadores de cana hoje são assalariados ou não? Sobre eles é extraída mais-valia. Ou não? A Petribu é um senhor feudal ou uma grande empresa capitalista? Se não sabemos nem identificar nossos inimigos, como vamos combatê-lo?

      No filme não apareceu essa questão do lote como tendo sido dado em troca do trabalho de cortar cana, como está no post. Pelo contrário, a senhora diz que o pai dela residia lá há 60 anos… De onde foi tirada essa informação que não está no vídeo?

      Quanto à Revolução Camponesa, mesmo a agricultura familiar, que seria a classe camponesa, esta hoje submetida aos monospônios, ou seja os grandes conglomerados como a Parmalat ou o Carrefour que são compradores únicos dessa produção que é então industrializada e revendida.

      Em termos de logistica, a distribuicao subverteu a logica produtiva na agricultura nos últimos 30 anos.

      É muito diferente o debate anterior se o Brasil colônia teve feudalismo ou não. Não estou de acordo com as teses de Caio Prado de que sempre fomos capitalistas. Mas hoje, janeiro de 2013 é outra história.

      A distribuição da terra aos camponeses é a proposta reformista para a classe. Por mais que se tenha um radicalismo e um grande espírito de luta. A coletivização da terra e sua administração pelo proletariado é a única bandeira comunista correta.

      Obrigado por me responder neste imporante debate de ideias!

  3. Celso Araujo Monteiro 10 de janeiro de 2013 às 17:00 #

    Caro Josue de Freitas:

    Toda Revolução Agrária é uma luta que, embora não seja “burguesa clássica”, ainda é burguesa em seu conteúdo pois a tarefa principal é liquidar o latifúndio, todo o monopólio da terra, e distribuí-la aos camponeses sem terra ou com pouca terra. A principal contradição existente no campo brasileiro é entre latifundiários e camponeses – leia-se: as principais lutas existentes no agrário brasileiro giram em torno da luta por um pedaço de chão, até os dias de hoje. É totalmente diferente da luta do proletariado moderno, que é necessariamente uma luta pela abolição da propriedade privada e pela Revolução socialista. E, como o próprio documentário mostra, “agronegócio” é o nome embelezado que encobre a natureza arcaica e atrasada do latifúndio brasileiro. Mesmo na usina Petribu, que é propriedade de uma sociedade anônima capitalista, as relações capitalistas se vêem somente da fábrica para fora. É uma peculiaridade da formação histórica brasileira que grandes capitalistas se tornem latifundiários, e que a própria forma como o capitalismo se desenvolveu em nosso país (capitalismo burocrático) faça com que ele subsista com formas mais atrasadas de exploração.

    A palavra “cortador de cana” não diz respeito a questões de relações de produção. Um cortador de cana pode ser um proletário moderno, como pode não ser. A própria presença do salário, por si só, também não constitui necessariamente capitalismo, pois no próprio sistema de peonagem o salário existe, embora os preços pagos pelo trabalhador por seus meios de substências nos próprios armazéns agrícolas exceda o próprio salário, fazendo com que o mesmo contraia uma dívida que o ata de maneira eterna ao latifundiário e reviva os traços mais vivos das formas de renda pré-capitalistas. No caso do vídeo, não se pode dizer de maneira alguma que as relações estabelecidas entre a usina Petribu e os camponeses são relações de produção capitalistas, onde os camponeses moram em terras da Usina e trabalham em terras dos usineiros em períodos de safra – o que se vê, na prática, são as formas mais nítidas de renda-trabalho. Dizer que o programa necessário para tal situação seja a expropriação das terras dos pequenos camponeses que lá trabalhavam em nome de uma suposta “Revolução socialista” – e não a liquidação do monopólio da terra por parte dos usineiros – destruiria completamente a aliança com os camponeses e os colocaria no campo da contrarrevolução e da grande burguesia. Logicamente, a distribuição de terra para os camponeses, embora seja um enorme avanço e progresso, não pára aí e deve necessariamente preceder a organização dos trabalhadores rurais em cooperativas agrícolas das mais simples às mais complexas, através da utilização da mais avançada técnica agrícola, extirpando dos pequenos camponeses a mentalidade pequeno-burguesa típica de sua origem de classe e preparando-os para a construção de uma nova sociedade, onde as grandes cooperativas agrícolas, à medida que se tornam cada vez maiores, evoluam para propriedade estatal de todo o povo.

    O PCdoB nos dias de hoje não defende de maneira alguma as teses da Revolução democrática antiimperialista e antifeudal, da feita que os principais alvos de tal Revolução são, na prática, as forças que o PCdoB mais defende e se apoia nos dias de hoje: a grande burguesia e os latifundiários. São eles que defendem a farsa da “reforma agrária” do governo que, ao invés de distribuir terra, concentra.

    Abraços!

    • Felipe castro 10 de janeiro de 2013 às 18:49 #

      Oi, acho que o josue tem razao. Onde no filme aparece os trabalhadores morando na terra das usinas e trabalhando por peonagem? Onde mostra que eles receberam uma parcela pelo trabalho? O josue apontou bem que o vídeo mostra outra coisa do que está escrito no post… A Petribu é uma empresa capitalista e seus trabalhadores são assalariados, o que de nenhuma forma diminui o caratér odioso dessa exploração. A ação deles de expulsar as famílias da terra é um cercamento para aumentar a área de exploração capitalista. No feudalismo o senhor não expulsava os servos da terra, pois sem poder usar o trabalho livre que era escasso ele dependia desse trabalhador que estava fixo na terra.Algo bem diferente do que ocorre hoje quando os cortadores são recrutados pelos gatos e depois do período da colheita descartados à própria sorte.

      Celso, capitalismo não tem nada de avançado, é o grande atraso na vida dos trabalhadores. É um modo de produção que como Marx mostrou se expandiu e hoje domina 99,8% do mundo não socialista.

      Pela lógica do Celso, se esses trabalhadores se tornarem assalariados seria um avanço…só que eles já são. Essas teses reformistas de revolução burguesa em nosso país são um atraso para os trabalhadores. Quer dizer que se falarmos de revolução comunista no campo vamos assustar os trabalhadores e romper a aliança dos oprimidos? Ah tá, então vamos ocultar nossos objetivos dos camponeses e lá na frente a gente convence eles da verdade! Essa lógica que torce a realidade em prol de um esquematismo não me convence. Um abraço a todos

      • Celso Araujo Monteiro 10 de janeiro de 2013 às 20:38 #

        Felipe, a modalidade de trabalho pré-capitalista com esses trabalhadores que viviam nos arredores dessas usinas era a renda-trabalho, não a peonagem. Ainda que a Petribu fosse uma empresa capitalista, tal empresa somente aplicava relações pré-capitalistas da fábrica para fora, e não durante a colheita, quando esses trabalhadores que moravam dentro das próprias terras das usinas trabalhavam no corte da cana, o que caracteriza muito bem uma relação de produção semifeudal (uso o termo “semi” pois as relações entre o latifundiário e o camponês já não são tão estreitas como no período da Alta Idade Média, por exemplo). E, ainda que os camponeses tenham sido expulsos, isso não muda o fato de que a demanda deles ainda é pela terra. Não tenho a menor dúvida que os camponeses viveriam muito melhor produzindo em terras de 100 hectares, com tratores, sementes melhoradas, nível técnico elevado (como acontecem em país que de fato passaram por revoluções burguesas, como EUA, França, etc.), do que recebendo 850 reais para irem morar em favelas na capital. Pior ainda, isso é ruim não somente para os camponeses como também para o Brasil como o todo, pois a expulsão desses camponeses de suas terras acarretará não só uma sobrepopulação agrária mendicante que aumentará o já enorme contigente de mendigos/favelados das cidades, além de que a produção de alimentos que de fato vai para a mesa dos moradores dos centros urbanos sofrerá um duro golpe, dado que quem produz tais alimentos não são os latifundiários, mas sim os pequenos camponeses.

        Não se tratam aqui de reformas, mas sim de derrubar o próprio Estado burguês-latifundiário. Reforma de facto seria ter a ideia totalmente equivocada de que o latifúndio é um elemento estático em nossa realidade, que poderia ser dinamizado através da introdução da mecanização, insumos agrícolas, capital e demais fatores – fosse assim, há muito tempo o latifúndio deixaria de ser uma realidade em nosso país para constituir uma exploração agrária de enorme extensão, tendo contudo uma outra função social diferente da qual cumpre. O que se trata de fato é de desagregar o poder do latifúndio e cumprir uma demanda secular de nosso povo que jamais foi atentida, que é a conquista da terra pelas classes pobres do campo. E tal Revolução Agrária só poderá ser concretizada por meio da aliança operário-camponesa. Só os camponeses guiados pelo Partido Comunista (guiado pela ideologia proletária e com a visão correta sobre tal quadro) poderão cumprir essa mesma tarefa, fundamental para a vitória da Revolução democrática no Brasil e uma das principais garantias para a transição para a Revolução socialista.

  4. Felipe Castro 11 de janeiro de 2013 às 09:20 #

    Celso, aqui você demonstra suas ideias de admiração ao “irmão do norte” …

    ” Não tenho a menor dúvida que os camponeses viveriam muito melhor produzindo em terras de 100 hectares, com tratores, sementes melhoradas, nível técnico elevado (como acontecem em país que de fato passaram por revoluções burguesas, como EUA, França, etc.), do que recebendo 850 reais para irem morar em favelas na capital. ”

    Sugiro a você ler o livro ou assistir o filme “Vinhas da Ira ” e ver o que foi a revolução burguesa dos EUA no campo!

    Então vamos lá, junto com a Kátia Abreu desenvolver o capitalismo no feudal campo brasileiro. Que viagem!!!!

    • Felipe Castro 11 de janeiro de 2013 às 09:23 #

      Como que se os operadores de tratores vivam melhor porque estão trabalhando com um nível técnico elevado…. O que tem a ver nível técnico no qual a pessoa está inserida com o desgaste que o trabalho causa nela? Se você trabalhar 12 horas por dia numa linha de produção de uma confecção, seu desgaste não será muito diferente de trabalhar 12 horas tricotando com agulha e novelo..

  5. Celso Araujo Monteiro 11 de janeiro de 2013 às 09:45 #

    Felipe, vou ignorar suas provocações e me ater ao que foi dito de relevante por você. Pelo jeito, você não leu as respostas que eu escrevi. Vou colá-las aqui:

    “Mesmo que tal Revolução seja, no início uma Revolução agrária e tenha um conteúdo burguês, dado que a questão principal é a liquidação do latifúndio e a distribuição das terras para os camponeses sem terra ou com pouca terra, é uma Revolução democrática de novo tipo, liderada pela classe operária, e que marcha de maneira ininterrupta para a Revolução socialista, não pertencendo portanto à velha categoria das Revoluções burguesas do século XVIII e sendo, atualmente, parte integrante da Revolução proletária mundial. Não se trata de extirpar as relações pré-capitalistas para desenvolver o capitalismo no campo ou coisa do tipo, mas de liquidar todo o capitalismo burocrático, todo imperialismo e feudalismo, e marchar de maneira ininterrupta para a construção do Socialismo em nosso país.”

    “O PCdoB nos dias de hoje não defende de maneira alguma as teses da Revolução democrática antiimperialista e antifeudal, da feita que os principais alvos de tal Revolução são, na prática, as forças que o PCdoB mais defende e se apoia nos dias de hoje: a grande burguesia e os latifundiários. São eles que defendem a farsa da “reforma agrária” do governo que, ao invés de distribuir terra, concentra.”

    “Não se tratam aqui de reformas, mas sim de derrubar o próprio Estado burguês-latifundiário. Reforma de facto seria ter a ideia totalmente equivocada de que o latifúndio é um elemento estático em nossa realidade, que poderia ser dinamizado através da introdução da mecanização, insumos agrícolas, capital e demais fatores – fosse assim, há muito tempo o latifúndio deixaria de ser uma realidade em nosso país para constituir uma exploração agrária de enorme extensão, tendo contudo uma outra função social diferente da qual cumpre. O que se trata de fato é de desagregar o poder do latifúndio e cumprir uma demanda secular de nosso povo que jamais foi atentida, que é a conquista da terra pelas classes pobres do campo.”

    Até onde eu sei, entre as principais demandas de figuras como Kátia Abreu, não está a conquista da terra pelas classes pobres do campo, a liquidação do monopólio da terra por meia dúzia de latifundiários ou extirpar as relações pré-capitalistas, feudais ou semifeudais, quando elas podem muito bem ser mantidas quando seja de interesse da grande burguesia burocrática.

  6. Celso Araujo Monteiro 11 de janeiro de 2013 às 09:47 #

    A propósito, escrevi um negócio errado num anterior comentário meu. Eis a correção:

    “Ainda que a Petribu fosse uma empresa capitalista, tal empresa somente aplicava relações capitalistas da fábrica para fora, e não durante a colheita, quando esses trabalhadores que moravam dentro das próprias terras das usinas trabalhavam no corte da cana”

    • Felipe Castro 11 de janeiro de 2013 às 11:14 #

      Celso,

      Como que podem ser aplicadas relações capitalistas da fábrica para fora? Você percebe a inconsistência do seu discurso?

      As relações capitalistas são na circulação, ou na produção? O capitalismo é um modo de produção ou de circulação?

      Existe fábrica não capitalista?

      Desculpe estar sendo chato, e não estou fazendo provocação não, apenas debatendo ideias com você e lhe mostrando que as ideias que você está propagando, apesar da sua ótima intenção, são prejudiciais ao movimeno operário. Se você quer contribuir com a revolução estude a teoria viva, mergulhe nos clássicos, leia Marx mas não fique repetindo esquemas e torcendo a realidade para fazer cabê-la nelas…

      De novo a dúvida do Josué: em que minuto do filme aparece a denúncia ao feudalismo? Onde aparece o que está escrito no post (que eu reproduzo abaixo)?

      “Em troca de uma posse de dois a três hectares nas terras da usina, os camponeses trabalhavam no corte da cana em períodos de safra, o que fazia a usina economizar com os custos dos transportes, da feita que eram nas próprias terras da usina onde os cortadores de cana viviam. Após a valorização do preço da cana, contudo, aqueles que trabalhavam nessas terras eram constrangidos a deixá-las, dado que tais terras ocupadas pelos camponeses poderiam servir para a plantação de mais cana.”

      As distorções da realidade, deixemos para nossos inimigos de classe. Apenas a verdade é revolucionária e se falharmos em analisarmos a realidade corretamente, cometendo os mesmos erros de antes, não contribuiremos com a libertação de nossa classe. Temos que vencer ou vencer. A nós não é permitido errar.

      U m abraço fraterno,

      Felipe Neves

  7. Celso Araujo Monteiro 11 de janeiro de 2013 às 13:31 #

    Caro Felipe:

    Com todo o respeito, só enxerga inconsistência aqueles que não percebem a possibilidade de relações capitalistas coexistirem com relações feudais e/ou semifeudais. Fenômenos inerentes à circulação não caracterizam relações de produção. Se assim fosse, não poderiamos estabelecer diferenças entre as formas de produção escravista, feudal, capitalista ou qualquer que fosse, dado que em todas elas, em menor ou maior ocorrência, existe a presença de economia mercantil. Devemos entender também a questão das diversas peculiaridades de como nossa economia se desenvolve – a presença de relações de produção feudais/semifeudais não significa que o nosso feudalismo irá reproduzir em toda sua plenutide e pureza os tempos áureos do feudalismo da Alta Idade Média, por exemplo. Ainda que, no caso, possa existir a presença do salário, não se pode considerar tal relação como capitalista – como se pode ver, os camponeses vivem e plantam em terras de 2 ou 3 hectares que pertencem à própria usina, e participam do corte no canavial em períodos de safra (o que caracteriza a renda-trabalho pré-capitalista). Tal situação foi outrora benéfica para os usineiros, pois permitia a eles economizar os custos dos transportes, dado que os trabalhadores viviam nos próprios engenhos – a contradição existente, neste caso, é entre pequenos camponeses e seus minifúndios (muito provavelmente de subsistência, dado que três hectares muito raramente geram excedentes que possam ser vendidos no mercado) e entre os grandes usineiros, também latifundiários, que lutam para manter intocável o monopólio sobre 28 mil hectares de terra.

    Garantimos que não vamos errar. Ao contrário, concretizaremos a Aliança Operário-Camponesa e seguiremos lutando, por um lado, para cumprir a demanda secular de dezenas de milhões de brasileiros que é a luta por um pedaço de de terra para plantar e viver. Por outro, garantiremos a segurança alimentar do país através da quebra do monopólio da terra pelos grandes latifundiários.

    Saudações fraternas.

    • Josue Freitas 11 de janeiro de 2013 às 15:33 #

      Prezados,

      Escrevi dois comentários que aguardam moderação. Está tudo ok?

      • Josue Freitas 11 de janeiro de 2013 às 15:48 #

        Nâo entendi? Escrevi um comentário grande, com citações do Manifesto Comunista e ele não apareceu aqui. Ele será publicado? Seria horrível ter que escrever tudo de novo… Se não, então encerro o debate aqui.

        Abraços

  8. coletivobandeiravermelha 11 de janeiro de 2013 às 16:53 #

    Josue Freitas,

    Não encontrei o seu comentário para aprovação e posterior publicação neste espaço. Sei que escrever tudo novamente é complicado, mas realmente não seria possível? Obviamente que publicaríamos sua publicação com o maior gosto, como fora feito até agora.

    Saudações

    Coletivo Bandeira Vermelha

    • Josue Freitas 11 de janeiro de 2013 às 17:37 #

      Oi,

      Será que eu cliquei algo errado? Tinha escrito com calma e agora estou apressado para ir para a aula, então vai de qq jeito…

      Enfim, estava dizendo que não tinha visto que a discussão estava tão boa…

      Primeiro dizer ao Felipe a ao Celso, que na política e na ciência, o fato de que erraremos é sempre uma certeza que temos. Achar que não vamos ou não podemos errar soa muito poético, mas é um baita idealismo.. Por isso para os comunistas a crítica é um dever e não um direito.. O certo é tentarmos não errar nos princípios e para isso temos que estudar e muito os clássicos do marxismo.

      Separei dois trechinhos do Manifesto Comunista, obra que é o ABC para qualquer comunista:

      “Onde quer que conquistou o poder, a burguesia destruiu todas as relações feudais, patrimoniais e idílicas. Todos os laços complexos e variados que unem o homem feudal aos seus “superiores naturais”, esmagou-os sem piedade para não deixar subsistir outro vínculo entre os homens que o frio interesse, as duras exigências do “a contado”.”

      “Vemos então que os meios de produção e de troca sobre cuja base se ergue a burguesia eram originários da sociedade feudal. Numa dada etapa do desenvolvimento dos meios de produção e troca, as condições sob as quais a sociedade feudal produzia e trocava, a organização feudal da agricultura e da indústria manufatureira, em suma, as relações feudais da propriedade mostraram-se incompatíveis com as forças produtivas em pleno desenvolvimento. Transformaram-se em outros tantos entraves a serem despedaçados; foram despedaçados.”

      Esse é o Marx escrevendo em 1848, antes da descoberta da energia elétrica, do motor à explosão. Hoje os latifúndios brasileiros aplicam uma grande técnica. A Petribu opera com colheitaderas que se movimentam por GPS, joga seu veneno a partir de aviões. Então o desenvolvimento das forças produtivas não significa nada. Para o Celso a Petribu é mesmo um senhor feudal? Que feudalismo é esse que se compatibiliza com uma indústria que produz 800 milhões de toneladas de açúcar por ano, o dobro do que há 10 anos atrás. No feudalismo, ou no escravismo isso só poderia ser explicado se houvesse o dobro de escravos ou de servos e o dobro da extensão de terra. No capitalismo isso se chama elevação da composição orgânica do capital, exploração através da mais-valia relativa.

      Quero que me apontem uma semelhança entra as relações da Petribu e dos senhores feudais, além de serem relações de exploração do homem pelo homem no campo… É fácil criticar o purismo e dizer que é óbvio que não seria o mesmo do que o feudalismo da alta idade média.. Agora, dizer que é feudalismo porque os trabalhadores podiam morar na terra cultivada? Agora é assim que se determina um modo de produção, onde o trabalhador mora? Pois esse foi o único argumento do Celso. E olha que isso não aparece em lugar nenhum do filme, é uma afirmação gratuíta que até agora ninguém mostrou nenhum link. Por que tentar ficar enquadrando a realidade em categorias que não dão conta.

      Isso não tira em nada o caráter odioso, como já foi ressaltado da Petribu, e espero que seja breve o dia em que os trabalhadores expropriem essa indústria que moi mais gente do que cana.

      Felipe, também receber salário em moeda não é o que define o capitalismo. Marx no livro 1 do Capital dá conta por exemplo do salário por peças e mostra como isso não muda nada. O Capitalismo é o sistema onde os trabalhadores são despojados de tudo e só podem sobreviver vendendo a única mercadoria que lhes resta, sua força de trabalho para um capitalista que extrai o sobretrabalho através da mais valia. Por isso que o camponês, como essa senhora são expulsos da sua terra. Se cada um tiver seus 2 ou 3 hectares, quem vai querer trabalhar para outrem?

      Veja bem o que o Marx disse, onde a burguesia tomou o poder esmagou o feudalismo. Para o Celso, quem está no poder hoje? Não é a burguesia a detentora do poder no Brasil? Cara, faz 160 anos que ele escreveu isso e você ainda acredita em feudalismo no Brasil, um país com maioria da população urbana, e que aplica sim uma alta técnica no campo. Claro que em toda formação social relações convivem. mas para determinar uma formação social é preciso saber qual é a dominante, qual é a mais importante, mais dinâmica. Qual determina as outras. E claro que são as capitalistas. A terra no Brasil pode ser comprada e vendida, diferente da época do feudalismo. Se houvesse esses senhores feudais, eles não conseguiriam competir com os capitalistas e suas terras acabariam sendo adquiridas, como de fato ocorreu no passado.

      Esse foi um dos erros do MST, apontou todas suas forças contra o latifúndio improdutivo. Só que enquanto isso, o capitalismo intensificou sua presença no campo. O agronegócio se tornou uma indústria extremamente produtiva e o movimento acabou minguando. Por isso que hoje os setores mais avançados dento dele não defendem a Reforma Agrária e sim a Revolução Comunista.

      Enfim, escrevo com preço e com certeza não ficou legal como os outros posts que escrevi. Também acho que a discussão está ficando repetitiva. Mas sugiro que o pessoal estude mais ao invés de fica tentando dogmaticamente passar uma posição que não está no filme.

      Um abraço,

      E fico por aqui, deixando a palavra final para o Celso, pois acho que a discussão vai começar a ficar repetitiva.

      Josue

      • Rafael Prossatti 11 de janeiro de 2013 às 18:07 #

        Josue, perfeito. Cheguei aqui pelo fb, li esses comentários agora e não poderia concordar mais. O MST realmente errou pq quis ficar criando pequenos lotes, desenvolvendo o capitalismo no campo, sem ver que estava fazendo o jogo da burguesia. Como o partidão quando ficou a reboque do Goulart. Saudações vermelhas. Rafael Prossatti

  9. Celso Araujo Monteiro 12 de janeiro de 2013 às 20:31 #

    Caro Josué, gostaria antes de tudo de sublinhar algumas insuficiências que vi em seus comentários. Infelizmente, observo tal desentendimento não só em você como em vários outros companheiros da luta. Cito-os:

    1) Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista em 1848. Portanto, se nos basearmos somente no Manifesto para tentar entender a realidade brasileira do século XX e de 2013, incorreremos em uma série de erros, exatamente por suas limitações históricas. Marx e Engels não viveram na época do imperialismo e das revoluções proletárias, em que a expansão imperialista e do modo capitalista de produção para todos os países do mundo, inclusive para os mais atrasados, levaria inevitavelmente a uma série de peculiaridades no desenvolvimento capitalista dos países mais atrasados.

    2) O capitalismo brasileiro não nasce de uma revolução burguesa, onde a burguesia revolucionária emergente de um processo de industrialização nacional, juntamente com as grandes massas populares, decapita reis e varre todos os restos de pré-capitalismo com o fim de abrir caminho para o desenvolvimento do capitalismo até sua etapa imperialista. Ao contrário, o capitalismo brasileiro nasce da expansão imperialista dos países centrais para os países atrasados, da política colonial e de exportação de capitais. A burguesia nacional brasileira que emerge do incipiente processo de industrialização nacional a partir do final do século XIX é, por um lado, anti-imperialista, pois sofre com os enormes golpes do capital estrangeiro sobre suas economias, por outro, teme o proletariado e concilia com o imperialismo nos períodos em que o primeiro se ergue de maneira mais vigorosa na revolução proletária. A burguesia burocrático-compradora brasileira, ligada à grande indústria e à importação de mercadorias do exterior, está umbilicalmente ligada ao imperialismo e se apoia sobre o que existe de mais atrasado em nosso país (leia-se: o latifúndio e o feudalismo) para mantê-lo sob o controle das grandes potências, como fonte de matérias-primas e mão de obra barata para os países centrais. Portanto, em todos os países que são semicoloniais, dominados, como o Brasil, quem leva a cabo as tarefas democráticas que não foram realizadas pelas burguesias nativas é a classe operária em aliança com os camponeses, por ser a classe social mais interessada em tais transformações, e que marcha de maneira ininterrupta da Revolução democrático-burguesa para a Revolução socialista.

    3) A terra-privilégio, como você bem cita em seus comentários, é uma categoria histórica do feudalismo. É de conhecimento de todos os que leram um pouco sobre a história de nosso país que Portugal, ao ocupar o território que hoje é conhecido como Brasil, dividiu-o em enormes feudos conhecidos como “sesmarias” na tentativa de satisfazer os interesses dos senhores feudais portugueses sem fortuna, cujos interesses principais eram reviver os tempos áureos do feudalismo da Alta Idade Média em latifúndios intermináveis. Contudo, numa sociedade onde não havia economia mercantil ou servos da gleba para produzirem com seus próprios instrumentos, que não havia saído sequer da etapa histórica da comunidade primitiva como era o Brasil da época, os colonialistas e senhores feudais foram obrigados a girar a roda da história ainda mais para trás e recorrer ao trabalho escravo dos indígenas e dos negros, em conjunto com enormes latifúndios-privilégios. É de conhecimento de todos também o fato de que a assinatura da Lei de Terras de 1850, que estabelecia que as terras no Brasil só seriam conseguidas por meio da compra, num país onde pelo menos 95% da população trabalhava sem receber salário, nada mais foi do que uma tentativa das classes dominantes de manter a terra como um privilégio. As novas leis constitucionais assinadas em 1891 foram ainda mais adiante e reconheciam a legitimidade das posses dos sesmeiros, mantendo assim intocável, até os dias de hoje, o monopólio da terra. Talvez isso explique o motivo de até os dias de hoje, no Brasil, vermos imóveis rurais de 5 milhões de hectares, totalmente virgens e inexplorados tal como 500 anos atrás, e, no outro extremo, mais de 90% dos camponeses brasileiros arruinados, arando terras a níveis técnicos primitivos e com menos de 10 hectares.

  10. Celso Araujo Monteiro 12 de janeiro de 2013 às 21:10 #

    Josué, em seus comentários você também cita a “enorme produtividade” do latifúndio, o que é uma mentira. Do total de 400 milhões de hectares de terras no Brasil, somente 50 milhões estão ocupadas por lavouras, das quais 37,5 milhões estão ocupadas por monocultura de exportação – soja, cana-de-açúcar, laranja, fumo, e o restante. Mesmo em tais áreas de lavoura, que são ocupadas pelo chamado “agronegócio” (nome pomposo que encoberta o caráter arcaico e atrasado do latifúndio no Brasil), não se pode afirmar que se apliquem em sua plenitude relações capitalistas, quando os próprios dirigentes do “agronegócio” aplicam em suas lavouras não somente o trabalho assalariado, como sistemas de peonagem, barracão, e várias modalidades de formas pré-capitalistas de trabalho. O caso Petribu é ilustrativo – não se chega à conclusão de que os trabalhadores da cana estavam ligados a relações pré-capitalistas pelas suas moradias, mas sim porque era benéfico para os senhores de terra que tais trabalhadores plantassem em minifúndios de subsistência e trabalhassem nos latifúndios canavieiros em períodos de colheita para que fossem economizados os custos de transporte que seriam gastos por eles, dado que os trabalhadores dos canaviais moravam nos próprios engenhos. Nada mais do que uma variante da prestação da renda-trabalho, ainda que com a incipiente presença do salário em tal relação. Àqueles que atribuem a “elevada produtividade” do agronegócio ao nível técnico, colo aqui um comentário do professor da USP, Ariovaldo Umbelino:

    “O caso mais gritante é aquele que ocorre no setor sucroenergético, de produção do álcool, que vive um processo forte de mecanização. No ano passado, cerca de 60% do processo de colheita da cana foi feito de forma mecanizada. É um setor que caminha nessa direção, diferente do setor de grãos, que já faz colheitas com máquinas há tempo. O que ocorre é uma pressão brutal por parte dos empresários para que os cortadores de cana aumentem a produtividade de trabalho manual. Isso quer dizer que esses trabalhadores devem aumentar a quantidade de cana cortada por dia. Essa quantia é expressa em toneladas. Na década de 1980 um trabalhador cortava de 4 a 6 toneladas de cana por dia, dependendo da produtividade do canavial. Na década de 1990 o trabalhador foi sendo pressionado a cortar algo em torno de 8 a 12 toneladas de cana por dia. Agora, a pressão é para que corte de 12 a 16 toneladas de cana a cada expediente. Isso exige um dispêndio descomunal de energia para o ser humano. Conforme estudos, a quantidade de energia despendida por um cortador de cana num dia equivale àquele gasto numa corrida de maratona, ou seja, 42 km por dia. Isso é algo desumano e faz com que haja perdas absurdas de água, sais e outras substâncias importantes no corpo humano. Por isso, algumas usinas introduziram o uso de isotônicos para seus trabalhadores, a fim de melhorar seu rendimento no serviço.”

    É lógico que, como já foi dito aqui, o caráter odioso de tal exploração não denuncia se tais relações são capitalista ou pré-capitalistas, mas denuncia o caráter arcaico do latifúndio e a necessidade da quebra do monopólio da terra, assim como a conquista da mesma pelos enormes contingentes da população rural marginalizada. Logicamente, o Brasil é um país capitalista assim como todos do mundo. Desde quando nosso planeta entrou na etapa do imperialismo, não existem mais países “feudais” no sentido áureo do termo, mas países onde o capitalismo burocrático, característico dos países dominados, condiciona a coexistência das relações capitalistas com as pré-capitalistas devido à dominação do imperialismo.

    Sobre a questão do MST, é lógico que nos últimos anos suas lideranças vem aumentando a defesa de uma tese que levantaria a questão do suposto “proletariado rural” no Brasil em detrimento dos camponeses pobres. Tal tese pelega sobre o “proletariado rural”, que o MST vem desenvolvendo, é somente uma das pseudo-justificativas para a capitulação da organização ante o latifúndio e a desculpa para que não sejam mais feitas tomadas de terras.

    De resto, ainda que segundo você estas sejam minhas últimas palavras, peço para que continuemos o debate. Seguiremos publicando mais artigos e vídeos no site do Coletivo, que contribuam para esse debate tão importante sobre os rumos da Revolução em nosso país.

    Saudações fraternas.

    • Felipe Castro 14 de janeiro de 2013 às 10:21 #

      1 – Alegar que o Manifesto está desatualizado não vale. Ninguém está baseado só no Manifesto. Essa questão aparece principalmente no Capital. Marx e Engels não viveram a Época do Imperialismo (ainda que no Capital, nos capítulos sobre a divisão de mais-valia e nos livros 2 e 3, já exista um ensaio de análise sobre o tema), que é a fase Superior do Capitalismo. Então como que pode que eles deixaram de ver algo atrasado, por não viveram a fase avançada? Ou você aponta um erro de lógica no que Marx disse?

      2 – O Capitalistmo prussiano também não nasceu de uma Revolução Burguesa e esse o Marx analisou bem, notando que a burguesia não deixou de se alçar ao poder por isso. Um sistema político ter surgido de uma conciliação e de negociações e acertos entre as classes dominantes traz suas peculiaridades, mas não essas que você cita. A burguesia brasileira nunca foi antiimperialista. Na América a burguesia é filha da colônia, sangue do sangue dela.. Essa dependência é uma das peculiaridades históricas dessa formação.

      A industrialização do fim do século XIX não foi tão incipiente assim. Começou com as fábricas de juta para fazer o saco que embalava o café. No começo do século XX o Brasil tinha uma malha ferroviária maior que a de hoje, por exemplo. Claro que em nossa condição de dependência o imperialismo impôs uma divisão internacional do trabalho, nos limitando o acesso à diversas tecnologias, mas as relações capitalistas de produção estavam emplena ascensão nessa época. Depois a Revolução Liberal de 1930 deu um novo impulso.

      3 – Não existem imóveis de 5 milhões de hectares virgens no Brasil como há 500 anos atrás. Você percebe a loucura de afirmar isso? Nem em questões ambientais temos florestas virgens dessa tamanho. Me mostre 5 milhões de hectares de terras privas de mata atlântica ou de cerrado virgem que vou começar uma petição para torná-la um parque nacional. Simplesmente um disparate. O maior parque nacional do Brasil, o Parque do Jaú tem 2,7 milões de hectares. Você está lendo textos de 50 anos atrás, sem perceber as transformações que ocorreram no campo brasileiro nos últimos 30 anos. Esse foi o erro do MST, ficou contra o latifúndio improdutivo, sem denunciar o inimigo maior no campo, o capitalismo agrário.

      4 – Não conehce ninguém mais avesso a tese do feudalismo no campo que o Ariovaldo Umbelino. De que ano é esse texto dele? Mas nada do que ele diz aí vem apoiar seu argumento. olha como na primeira linha ele já contradiz o que você quer argumentar:

      “No ano passado, cerca de 60% do processo de colheita da cana foi feito de forma mecanizada. É um setor que caminha nessa direção, diferente do setor de grãos, que já faz colheitas com máquinas há tempo. ”

      Ou seja, o campo brasileiro já usa a mecanização nos grãos e na cana e avança nesse sentido. Feudalismo não existe com colheita mecânica a trator..

      De um outro texto dele que encontrei e li na plataforma scielo:

      http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142001000300015&script=sci_arttext

      “Assim, a chamada modernização da agricultura não vai atuar no sentido da transformação dos latifundiários em empresários capitalistas, mas, ao contrário, transformou os capitalistas industriais e urbanos – sobretudo do Centro-Sul do país – em proprietários de terra, em latifundiários. A política de incentivos fiscais da Sudene e da Sudam foram os instrumentos de política econômica que viabilizaram esta fusão. Dessa forma, os capitalistas urbanos tornaram-se os maiores proprietários de terra no Brasil, possuindo áreas com dimensões nunca registradas na história da humanidade. O exemplo mais clássico é o famoso Projeto Jari. Implantado pelo multimilionário Daniel K. Ludwig, foi “nacionalizado” no final do governo Figueiredo, quando passou para um grupo de cerca de 25 empresas, lideradas pelo grupo Azevedo Antunes. A área ocupada, depois da criação e atuação do Grupo Executivo do Baixo Amazonas (GEBAM) (3), citada em estudos publicados, tinha superfície superior a quatro milhões de hectares. Em decorrência desse processo, tornou-se possível identificar dois aspectos contraditórios destes capitalistas modernos: a mesma indústria automobilística que pratica as mais avançadas relações de trabalho do capitalismo no Centro-Sul, na Amazônia, ao contrário, praticava em suas propriedades agropecuárias a “peonagem”, relação de trabalho também chamada de “escravidão branca”. Em outras palavras, a mesma empresa atuava de forma diferenciada em regiões distintas deste país.

      No Brasil, esta aliança fez com que, ao invés de a burguesia atuar no sentido de remover o entrave (a irracionalidade) que a propriedade privada da terra traz ao desenvolvimento do capitalismo, atuasse no sentido de solidificar, ainda mais, a propriedade privada da terra. Foi em decorrência desta mesma aliança que, na Assembléia Constituinte de 1988, o único capítulo da Constituição a ter recebido praticamente a unanimidade dos votos dos representantes dessas elites, foi aquele sobre a Reforma Agrária. Ressalte-se que tal comportamento não ocorreu com relação a outros capítulos da Constituição brasileira. Dessa forma, a concentração da propriedade privada da terra no Brasil não pode ser compreendida como uma excrescência à lógica do desenvolvimento capitalista. Ao contrário, ela é parte constitutiva do capitalismo que aqui se desenvolve. Um capitalismo que revela contraditoriamente sua face dupla: uma moderna no verso e outra atrasada no reverso. É por isso minha insistência na tese de que a concentração fundiária no Brasil tem características sui generis na história mundial. Em nenhum momento da história da humanidade houve propriedades privadas com a extensão das encontradas no Brasil. A soma da área ocupada pelas 27 maiores propriedade privadas no país é igual à superfície total ocupada pelo estado de São Paulo, ou, se for somada à área ocupada pelas 300 maiores propriedades privadas no país, ela equivale a duas vezes a superfície total deste mesmo estado.”

      Ou seja, para concluir, o desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro tem suas peculiaridades, e isso significa sim uma convivência com relações atrasadas, como a peonagem, e até com o trabalho escravo. Mas há muito tempo, a relação fundamental e determinante em nossa formação social é o capitalismo e não o feudalismo!! O inimigo priuncipal são os capitalistas, não os senhores feudais! Esses os próprios capitalistas do campo se encarregaram de borrar da história.. Não é porque existe trabalho escravo nas prisões dos EUA que vamos considerar a economia deles escravista. Em uma formação social há que se ver qual a relação principal, a mais dinâmica, e quais são apenas resquícios, ou peculiaridades. Agora julgar e caracterizar uma formação social por uma peculiaridade é um contrasenso. E nesse caso é reacionário. Apostando nossas fichas contra os senhores feudais, estamos sim fazendo o jogo da Kátia Abreu e cia.. Afinal estamos apontando para o povo que o alvo é o inimigo enfraquecido do nosso inimigo poderoso.

      Abraços,

      Felipe

  11. Celso Araujo Monteiro 14 de janeiro de 2013 às 14:54 #

    Felipe Castro, somente duas coisas:

    1) O capitalismo prussiano e o capitalismo brasileiro são totalmente diferentes um do outro, de forma que qualquer comparação entre os dois de fato é uma enorme loucura. Quando foi iniciado na Alemanha o processo de desenvolvimento capitalista, o mundo ainda não havia entrado na época do imperialismo. A própria nobreza alemã se converteu em burguesia e iniciou a destruição dos seus próprios restos feudais para abrir caminho para o pleno desenvolvimento do capitalismo até sua etapa imperialista. Não só fez isso como o próprio “rei burguês”, Bismarck, nacionalizou os meios de produção estrangeiros em território alemão e converteu-os em propriedade capitalista de Estado. Nos dias de hoje, a Alemanha não só é uma das maiores (senão a maior) potências imperialistas do mundo como sua situação a nível nacional nada possui em comum com a situação brasileira.

    2) Em contrapartida à situação alemã, o capitalismo burocrático brasileiro nasce da expansão mundial do imperialismo, da política colonial e de exportação de capitais.

    Quanto ao resto, vou colar de novo alguns trechos que escrevi porque você não parece ter lido:

    “É lógico que, como já foi dito aqui, o caráter odioso de tal exploração não denuncia se tais relações são capitalista ou pré-capitalistas, mas denuncia o caráter arcaico do latifúndio e a necessidade da quebra do monopólio da terra, assim como a conquista da mesma pelos enormes contingentes da população rural marginalizada. Logicamente, o Brasil é um país capitalista assim como todos do mundo. Desde quando nosso planeta entrou na etapa do imperialismo, não existem mais países “feudais” no sentido áureo do termo, mas países onde o capitalismo burocrático, característico dos países dominados, condiciona a coexistência das relações capitalistas com as pré-capitalistas devido à dominação do imperialismo.”

    “A burguesia nacional brasileira que emerge do incipiente processo de industrialização nacional a partir do final do século XIX é, por um lado, anti-imperialista, pois sofre com os enormes golpes do capital estrangeiro sobre suas economias, por outro, teme o proletariado e concilia com o imperialismo nos períodos em que o primeiro se ergue de maneira mais vigorosa na revolução proletária. A burguesia burocrático-compradora brasileira, ligada à grande indústria e à importação de mercadorias do exterior, está umbilicalmente ligada ao imperialismo e se apoia sobre o que existe de mais atrasado em nosso país (leia-se: o latifúndio e o feudalismo) para mantê-lo sob o controle das grandes potências, como fonte de matérias-primas e mão de obra barata para os países centrais. Portanto, em todos os países que são semicoloniais, dominados, como o Brasil, quem leva a cabo as tarefas democráticas que não foram realizadas pelas burguesias nativas é a classe operária em aliança com os camponeses, por ser a classe social mais interessada em tais transformações, e que marcha de maneira ininterrupta da Revolução democrático-burguesa para a Revolução socialista.”

    No mais, a tese do professor Ariovaldo Umbelino só age no sentido de comprovar aquilo que já vinhamos teorizando. A grande burguesia e o imperialismo se apóiam no monopólio da terra, no latifúndio e no sentido de dar sobrevida às relações pré-capitalistas para manter nosso país na condição de semicolônia. Como já havíamos dito, é uma peculiaridade do desenvolvimento capitalista no Brasil que grandes burgueses se tornem latifundiários e não o contrário, e que mesmo em terras de propriedades de grandes capitalistas não se apliquem relações capitalistas, daí ser correta a tese da coexistência entre atraso e dinamismo, e que as transformações democráticas só podem ser encabeçadas pelos operários e camponeses.

    Quanto à questão de estar “fazendo o jogo de Katia Abreu”, parece ser muito conveniente para Kátia Abreu e demais senhores de terras como Jader Barbalho e cia. que a maior organização camponesa no Brasil atualmente, o MST, esteja desenvolvendo teses sobre o “capitalismo agrário” para justificar que não sejam mais feitas tomadas de grandes latifúndios por camponeses sem-terra, teoria esta sim, de fato, reacionária.

    Abraços!

    Celso

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