Sobre a moralidade comunista

30 mar

Por Augusto César Mazdaki

Em sua batalha ideológica contra o proletariado revolucionário, a burguesia tem criado e levado adiante uma série de mitos, bem como percepções filosóficas e acusações propositalmente falsas contra militantes revolucionários. Durante o período da Guerra Fria, a ideia de que comunistas são “imorais” foi um lugar-comum entre os propagandistas burgueses. O motivo de tais deturpações é o fato dos comunistas nunca terem se adaptado às noções de moral defendidas pelas sociedades capitalistas e sempre terem colocado em cheque os valores “sagrados” do chauvinismo nacionalista, da dominação religiosa, do apartheid e noções de superioridade racial, da dominação burguesa de classe e da propriedade privada dos meios de produção pela burguesia. Tudo isso levava a crer que os comunistas não possuíam uma bússola moral para as suas ações e que eram totalmente desprovidos de moral.

Aos olhos daqueles que conhecem o significado de ser comunista apenas por meio dos veículos de propaganda ocidentais, um comunista é guiado unicamente por um sentimento destrutivo de inveja, pela busca da meta de adquirir a propriedade de outrem através do “roubo”, e pela degradação da pureza moral absoluta, representada em seu paradigma supremo pela cultura e pelos valores ocidentais, a saber a cultura e os valores europeus e estadunidenses. A ideia de que os comunistas têm, de fato, uma bússola moral e um discernimento de “certo e errado” soa como algo desconcertante para este tipo de pessoa.

O comunista, no entanto, não é alguém desprovido de moral. Para o militante revolucionário, existe uma rigorosa distinção entre certo e errado, distinção moral que guia suas ações e determina o curso de ação correto e o incorreto em face de um dilema moral. Ao mesmo tempo em que rejeita a moralidade da burguesia, que se baseia em noções abstratas e metafísicas que, em última análise, servem àqueles no poder na sociedade burguesa, o próprio comunista é um agente moral.

Para compreender este fato e como este sistema moral funciona, nós devemos compreender que as questões morais não existem enquanto algo ideal e que a resposta adequada a estas questões é baseada tanto na situação material do contexto em que se inserem quanto no interesse de classe do agente moral propriamente dito.

As questões morais são baseadas nas condições e nos interesses materiais

Sob o sistema burguês, nós somos ensinados desde a tenra idade que o certo e o errado são conceitos imutáveis, valores pétreos que se encaixam em qualquer contexto, qualquer que seja o tempo e o lugar. Tais conceitos existem acima de nosso mundo e o regem. Somos ensinados, por exemplo, desde a tenra idade que mentir, roubar, etc., são coisas erradas, pelo fato de tais coisas serem práticas próprias de “pessoas más”. No domínio das religiões abraâmicas, nos é dito que um deus onipotente, onisciente, onipresente e benevolente deu a nós diretrizes morais escritas em pedras achatadas, nos dando uma resposta para todas as questões acerca do certo e do errado, definidas por uma lista de mandamentos que não devem ser violados. Tanto esta teoria de uma moralidade que emana de um “mando e guia divino” quanto as instruções que as crianças recebem desde a mais tenra idade representam uma interpretação ética que está baseada no pensamento metafísico.

O pensamento metafísico define e racionaliza o nosso mundo fazendo uso de um apelo a elementos que supostamente existem fora do plano material. Da mesma forma que Deus é supostamente um ser que não pode ser sondado pelos seres insignificantes que criou e é dono de poder, sabedoria, benevolência e autoridade infinitos, bem como possuidor de uma percepção que vai além da matéria, conceitos tais como “Verdade”, “Justiça”, “Certo” e “Errado” também existem fora do plano material, fora do nosso mundo e longe de tudo o que aconteça no âmbito da matéria. Tais conceitos estão também acima e além do matéria, embora constituam também o padrão sobre o qual devemos moldar a realidade material à nossa volta. Tais conceitos constituem um todo que não deve ser submetido a um escrutínio ou análise, nem tampouco questionado e, em última análise, nós devemos dar autoridade a estas concepções e construções metafísicas, se quisermos agir de um modo moral e correto.

Os moralistas metafísicos esforçam-se em apresentar seus sistemas éticos como sendo íntegros e simples, outorgando-nos o “livre-arbítrio” de seguir as ditas regras e diretrizes, para que tudo ocorra bem. No entanto, se tentarmos tomar a decisão “correta” face às vicissitudes do mundo material, nós nos depararemos com problemas. Vamos tomar como exemplo os atos de mentir e roubar. Normalmente, vê-se a mentira como algo imoral, ao passo que dizer a verdade é a coisa certa a ser feita. Suponhamos, no entanto, que nos encontramos no ano de 1942, e um cidadão esconde uma meia dúzia de judeus e ciganos em seu sótão. Um oficial do governo alemão vem à sua porta e pergunta se há mais alguém em sua casa. Poderíamos dizer que responder “Sim, senhor, há alguns judeus e ciganos em meu sótão” é a opção mais aceitável no plano moral, ou a coisa certa a fazer seria mentir com o propósito de protegê-los de uma morte certa? No caso do furto, imaginemos uma situação onde se tem a escolha de roubar comida ou água — as quais o proprietário possui em abundância — para salvar a vida de alguém que, de alguma forma, está privado de tais bens essenciais. Ainda assim se poderia considerar o furto como algo errado ou imoral?

A maioria das pessoas, dados os exemplos supracitados, concordaria que seria, sim, correto e justificável burlar estas proibições sob tais circunstâncias.  No entanto, se seu conceito de moralidade é definido por tais conceitos pétreos, como pode haver um sistema moral sólido se qualquer ato que desafie tais regras sagradas, ainda que justificáveis, sejam considerados imorais? A resposta é que um sistema moral sólido não pode existir sob tais circunstâncias. Para que se construa um sistema moral que se desvie de construções metafísicas, que abra exceções a estes valores supostamente pétreos, a ação moral deve ser baseada em algo que não em tais valores. De outra forma, a moralidade se torna de per se arbitrária e materialmente inexistente.

A partir desta análise, vemos que se um ato moral é possível, se existe uma maneira “certa” ou “errada” de se atuar em uma circunstância e se concepções metafísicas não podem servir para guiar tais decisões, nos damos conta também de que o que define o “certo” e o “errado” se origina objetivamente da situação em que nos encontramos tal como existe na realidade objetiva inerente ao mundo material. Isto é, a maneira que nos são dados os nossos entendimentos morais e as circunstâncias sob as quais nós devemos colocá-los em prática têm origem no mundo material, não fora dele. Isto significa que toda a moralidade está sujeita a um contexto social pré-existente, e que em um mundo definido por interesses e antagonismos de classe, a moralidade e as percepções morais estão e são permanentemente influenciadas por tais interesses e antagonismos.

A moral burguesa e a proletária

A mentalidade e a moralidade dominante de uma era são a mentalidade e a moralidade da classe dominante de tal era. A moralidade no capitalismo, desta forma, é definida pela classe dominante de tal sistema. Os conceitos metafísicos utilizados para apregoar a ação moral através das eras, sob diferentes sistemas econômicos e sob diferentes modos de produção, são rotineiramente cooptados a serviço da burguesia, bem como foram cooptados pelas classes dominantes de outras eras. Da mesma forma que os agentes do cumprimento da lei (i.e., a polícia e as forças armadas) servem à burguesia, assim também fazem os conceitos ideologicamente motivados do que é o certo e o errado.

Consideremos as implicações disto para a análise moral de uma história bastante conhecida. A história de Robin Hood é o conto de um nobre ladrão que faz carreira furtando de ricos proprietários rurais. Robin Hood é considerado um herói, fazendo a coisa certa dentro de seu contexto e é celebrado pela cultura de massas ocidental, tendo sua história contada repetidas vezes pelos mais diversos canais de comunicação. Desta forma, Robin Hood é considerado um agente moral, mesmo sob o regime capitalista. No entanto, pelo bem da discussão, proponhamos uma releitura desta história. Nesta versão, Robin Hood é um revolucionário contemporâneo, que luta contra a polícia de choque da burguesia e trava uma guerra de classes contra os poucos proprietários e detentores dos meios de produção, apropriando-se destes meios de produção em favor da explorada e oprimida classe trabalhadora e em benefício da mesma. Na dinâmica da ditadura burguesa contemporânea, ainda podemos considerá-lo um herói?

A resposta para tal pergunta depende da pessoa a quem ela é feita. Se você perguntar a um membro da burguesia ou a alguém que seja aquiescente com sua perspectiva ideológica, esta pessoa dirá que Robin Hood não está fazendo uma coisa boa. De fato, ele está praticando o mal ao pôr em cheque o sagrado decreto do direito à propriedade privada, ou simplesmente está fazendo algo de uma maneira viciada, embora tenha um objetivo nobre, pois está subvertendo a “democracia” ao defender a revolução em detrimento da reforma. Talvez, o problema esteja no fato de que nele está encarnado o pecado capital da “inveja” e, desta forma, estaria agindo como o joguete de alguma “força diabólica” fora de sua consciência imediata. Qualquer que seja o argumento metafísico empregado pela burguesia ou por seu cão de guarda, em sua análise eles chegarão, em última análise à mesma conclusão: Robin Hood está errado.

Ignorando o turbilhão de desculpas metafísicas do porquê de Robin Hood não ser um agente moral, qual é a base da condenação à sua suposta transgressão moral? O quê exatamente ele fez de errado? Seria o simples fato de ele ter “roubado”? A resposta é um categórico não. Não é isso que o descaracteriza como um agente moral.

O ato de roubar não é inerentemente errado sob  a ótica do capitalismo — o roubo de recursos tais como terras e riquezas naturais é um passatempo muito apreciado pelas potências imperialistas, e o desenvolvimento do capitalismo em si exige que seja realizado o roubo de terras, quer pertençam a populações indígenas autóctones ou quilombolas, quer pertençam a uma comunidade camponesa independente. O “crime” do nosso Robin Hood foi questionar a legitimidade da hegemonia, do poder da burguesia sobre todas as coisas e da sua propriedade, que constitui a base de sustentação desse poder.

O imperativo moral da moralidade burguesa

É esta defesa da posição e do poder da burguesia que constitui o axioma central da moralidade burguesa. Constitui o imperativo moral definitivo da moralidade burguesa preservar as relações de propriedade e de produção de riqueza que definem o capitalismo e, por conseguinte, corroboram sua posição privilegiada na sociedade. Sua moralidade tem como único fim a justificação da “legitimidade” de sua existência enquanto classe.

A burguesia existe na forma de uma classe parasitária, que explora a força de trabalho dos trabalhadores, que são forçados pelo medo da fome e da indigência a trabalhar nos meios de produção dos quais a burguesia é proprietária. A burguesia obtém a sua riqueza e poder a partir desta relação na forma da mais-valia, gerada pelos trabalhadores, e seu monopólio sobre a propriedade produtiva, necessária à vida social e econômica da sociedade. Assim sendo, a fim de justificar e defender sua existência enquanto classe, eles defendem avidamente a propriedade privada dos meios de produção como sendo um direito sagrado. A fim de tornar essa tática ainda mais eficaz, eles fazem empregam dois métodos: obscurecem aquilo que estão de fato defendendo e fazem a defesa de tal “direito” como se fosse algo outorgado por um poder absoluto.

Nós podemos ver o primeiro método manifesto na descaracterização da contestação à propriedade privada. O anticomunista interpreta o ataque à propriedade privada da burguesia como um ataque contra toda propriedade, seja esta uma fábrica ou mina de carvão, ou até mesmo uma residência pessoal, um televisor, um carro ou uma peça de roupa.

No espantalho fabricado pelo típico covarde anticomunista — que é um imbecil e um canalha por definição — e sua descaracterização do comunismo, não há distinção entre propriedade pessoal e indústria, entre meio de produção e meio de subsistência pessoal. Reconhecer tal distinção seria, para ele, algo contraproducente. Ao invés disso, toda propriedade deve estar sob o risco de desaparecer, e este perigo deve ser condenado, não importa quem ou o quê sejam a razão para tal.

A segunda modalidade de defesa tem por objetivo obscurecer a origem de classe da defesa da propriedade privada. Ao invés do burguês genérico explicar com argumentos o porquê de achar que a sua propriedade privada, e apenas a sua, deve ser defendida, nós temos, ao invés disso, um argumento que alude um “direito sagrado” aplicado a toda propriedade, mesmo quando nós sabemos que tal lógica serve apenas à defesa de um único tipo de propriedade. Quando se trata da burguesia, pode-se dizer que lhes foram “outorgados” por seu “Criador” certos “direitos inalienáveis.” Eles podem argumentar que ao trabalhador também foram auferidos tais direitos, ainda que, no final das contas, um trabalhador mal seja capaz de defender a existência de comida em seu prato, tanto menos um “direito” cuja defesa ele é incapaz de fazer dentro dos confins da sociedade capitalista.

Esta é a base material da moralidade burguesa. A modalidade da defesa da moral burguesa pode variar, pode se contradizer, pode apresentar exacerbadas diferenças filosóficas entre um grupo e outro e pode alardear premissas morais de natureza de classe aparentemente neutra. No entanto, quando se trata do papel desempenhado pelo poder em decidir o que é considerado moralmente certo e a forma como isto é aplicado na prática, nós vemos a moralidade burguesa pelo que ela realmente é: uma estrutura ideológica no âmbito da qual a burguesia sustenta percepções morais que servem unicamente para defender seu poder e sua posição de classe. Despida de suas proclamações morais supérfluas, revela-se como uma forma circinal de se dizer “quem pode mais, chora menos”, uma vez que tal poder é o que controla a sociedade.

O imperativo moral da moralidade proletária

A moralidade proletária é diametralmente oposta a esta expressão ideológica da dominação burguesa. Enxerga-se a moralidade burguesa pelo que ela é: mais um punhado de correntes atadas ao pescoço da classe trabalhadora a compeli-la a continuar trabalhando sem resistência ao poder e à propriedade. Enquanto que a moralidade burguesa existe exclusivamente para a defesa da hegemonia burguesa, a moralidade proletária existe para resistir e se contrapor a essa hegemonia. Assim sendo, tanto o Robin Hood clássico quanto o nosso Robin Hood dos tempos modernos podem ser vistos como agentes morais por sua resistência à exploração e à opressão de classe.

O proletariado é a classe trabalhadora que dispõe apenas de sua força de trabalho para vender e, desta forma, se encontra presa em meio ao esquema de produção do capitalismo, forçada a trabalhar durante longas horas para ser recompensado com apenas uma minúscula fração daquilo que produz para a burguesia. O proletariado é alienado não apenas do que ele produz, mas do modo como ele produz. Os trabalhadores também são alienados uns dos outros, forçados a ver outros trabalhadores como competidores ou sendo separados uns dos outros pelas maquinações do sistema capitalista. Para o trabalhador dotado de consciência de classe, que compreende o seu problema e a causa de seu problema, a burguesia e o sistema capitalista representam um inimigo irreconciliável. A burguesia e o sistema capitalista são a causa das injustiças diárias e da agonia partilhada por todos os trabalhadores e são, portanto, abomináveis, imorais e devem ser desafiados e violentamente postos por terra se os trabalhadores desejam escapar das prisões em que se encontram.

A visão moral resultante desta perspectiva é uma visão que enfatiza a libertação coletiva da classe trabalhadora deste sistema. É a perspectiva moral que condena a exploração e a alienação levadas a cabo pelo sistema capitalista como moralmente más e, por conseguinte, prevê uma situação social onde os trabalhadores estejam no controle dos meios de produção, do que produzem, de como produzem, para qual necessidade e para qual fim, além de não serem explorados e não estarem alienados um em relação ao outro, como sendo algo desejável, bom, certo e justo.

Da mesma forma, os meios de efetuar tal transição também são morais, na medida em que não têm como consequência o avanço da alienação e da exploração da classe trabalhadora. Assim sendo, da mesma forma que a moralidade burguesa defende a contrarrevolução, a moralidade proletária defende a causa da revolução em benefício da imensa maioria da população.

As origens da moralidade comunista

Quando se trata da moralidade comunista, é importante que se compreenda as raízes de algumas ideias defendidas pela classe trabalhadora revolucionária no tocante à ética. Dois sistemas éticos diferentes podem ser vistos como aportes à perspectiva moral do comunista.

O primeiro dos sistemas éticos que pode de certa forma ser visto uma contribuição à moralidade comunista é o utilitarismo. O utilitarismo, definido de forma simples, significa que o que é bom é definido “[pelo] que desenvolve a maior felicidade,” ou o maior bem-estar. Esta definição foi posteriormente modificada, aplicando este padrão “[ao] maior número possível de pessoas.” Ora, se nós examinarmos isto nos termos da moralidade proletária, um “utilitarismo proletário” poderia ser definido como “aquele que leva adiante a causa do proletariado é justo, e aquele que a retarda é injusto.”

O segundo sistema ético que pode ser visto como um aporte à perspectiva moral comunista é a da ética deontológica. A ética deontológica refere-se a um conjunto de valores éticos que tomam forma com base em regras, normas e custos, ao invés de meros resultados, para a compreensão de quais ações poderiam ser consideradas morais. Uma vez que a moralidade proletária existe com o intuito de resistir à alienação e à exploração dos trabalhadores, tal sistema de valores deve definir ambas como abomináveis e contrárias à sua expressão moral. Deve-se ter em mente a necessidade de se pensar tanto na alienação quanto na exploração como algo anacrônico e execrá-las enquanto elementos da vida social humana e de sua experiência histórica. Portanto, a moralidade proletária deve conter um mecanismo que proteja os trabalhadores e revolucionários dessas forças e da sujeição a elas, bem como previna-os de sujeitarem outros trabalhadores a elas.

Os fins sempre justificam os meios?

É importante que se compreenda as duas origens da moralidade comunista, pois ambas são essenciais para fundamentar a ação moral. Uma acusação bastante comum que pesa contra comunistas é aquela segundo a qual a doutrina comunista é definida por uma postura moral no âmbito da qual “os fins justificam os meios” e que os comunistas seriam consequencialistas e que, desta forma, inevitavelmente cometem grandes crimes na busca de suas aspirações revolucionárias. Trata-se de uma contraverdade. Os fins nem sempre justificam os meios em virtude de que determinados meios para atingir um fim podem se colocar como um obstáculo em relação ao dito fim a longo prazo.

Deve-se compreender, antes de qualquer coisa, que intensificar a alienação para os trabalhadores não serve aos interesses da revolução e que, portanto, um revolucionário deve esforçar-se para que seja encontrado em suas ações um equilíbrio entre o fim de uma ação, que tenha por objetivo o avanço do proletariado como um todo, e o potencial agravamento da alienação e exploração dos trabalhadores, como um possível resultado da ação.

Tenhamos em mente que ao mesmo tempo em que o trabalhador deve estar sujeito às necessidades da maioria, deve-se compreender que o indivíduo conta como parte do coletivo; o prejuízo de uma pessoa não é sempre “aceitável” simplesmente pelo fato de se tratar de uma única pessoa, uma “minoria” — adotada esta linha de ação errônea, corre-se o risco da maioria dos indivíduos ser alienada por medo de se tornar a “minoria” ao se encontrar na mesma posição que essa pessoa.

Esta é a dinâmica de decisão que deve ser analisada por um comunista cada vez que for preciso ponderar se uma ação é moralmente correta ou não. Este é um meio prático de se avaliar a compatibilidade de suas ações com o fim que se deseja obter. Se uma organização ou partido está a seguir a perspectiva moral que deriva dos interesses de classe e do ponto de vista ético do proletariado revolucionário, esta deve estar consciente de tal dinâmica e levá-la em consideração em todas as decisões que tomar.

A moralidade comunista é dialética e materialista

A perspectiva moral do proletariado revolucionário é, por sua própria formulação, materialista e dialética. Ela funciona tanto para resolver problemas através de uma perspectiva influenciada pelos fatos que ocorrem naquele contexto e lugar, quanto através de um método científico de avaliação do mundo material entro de uma metodologia racional. Da mesma forma que a análise dialética se faz necessária para a busca de uma estratégia adequada para o avanço das lutas revolucionárias, ela é também essencial para a manutenção de um sistema moral enquanto se defende a causa da revolução.  O revolucionário deve encontrar um equilíbrio entre as ações realizadas em nome da revolução e os custos destas ações no que tange a alienação para o proletariado, uma vez que é representante e defensor desta mesma classe.

É desta maneira que a dialética da moralidade não só se revela como sendo um método superior para a análise moral, mas também nos auxilia na medida em que adotamos uma percepção mais avançada da maneira como os seres humanos aplicam a dialética em sua interação com o mundo. Anteriormente, nós discutimos sobre como a maioria das pessoas, mesmo aquelas que seguem formas de ação metafísicas, é capaz de agir de forma contrária a essas normas quando a situação exige; a capacidade de encontrar o equilíbrio, de compreender e tentar racionalizar a ação contrária a estas normas e construções metafísicas, demonstra uma inclinação ao pensamento dialético.

A dialética é algo que utilizamos todos os dias, quer reconheçamos ou não. Ela influencia nosso modo de pensar em meio a um número de inclinações estratégicas e filosóficas. Assim sendo, a dialética é o método perfeito para racionalizar o que torna uma ação moral dentro do contexto em que ela se insere. As condições materiais, ao invés de virtudes e costumes abstratos, determinam o resultado necessário de uma ação e o mecanismo para determinar a ação moral deve estar baseado em uma análise científica.

Conclusão: o imperativo revolucionário é um imperativo moral

O comunista não é um niilista moral. Pelo contrário, há um rigoroso imperativo moral que guia todo aquele que é digno de ser chamado de comunista. A própria revolução é um imperativo moral. Ela deve ser alcançada, deve ser atingida para que se possa progredir na busca pelo bem maior da classe trabalhadora, defendê-la das injustiças criadas pela exploração dos trabalhadores e superar a dor e o desespero trazidos pela alienação.

Ainda que os fins não justifiquem os meios em todos os casos, o proletariado tem toda a legitimidade moral para se armar e resistir violentamente ao domínio da burguesia compradora, defender-se das injustiças e colocar em cheque a ordem estabelecida, que foi construída sobre o sangue dos trabalhadores.

A moralidade burguesa condena esta perspectiva, mas deve-se compreender que tal condenação serve apenas aos seus próprios interesses da manutenção poder e hegemonia. Não há justiça em sua justiça, não há moral em sua moral que possa ser benéfica e positivamente aplicada à vida do proletariado. O proletariado tem sua própria moral, que é aquela que serve ao bem comum e à justiça maior. E é por esta razão que cada comunista é um agente moral.

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4 Respostas to “Sobre a moralidade comunista”

  1. Vinicius 21 de abril de 2013 às 00:35 #

    Eu discordo em quase todos os pontos. A moral nunca deve ser usada pelo comunismo, pois o comunismo, em última instância, é uma libertação e não um aprisionamento. Um sistema moral é por definição algo que limita, mas é uma filiação involuntária, ninguém escolher ser cristão no Brasil, por exemplo – entretanto, quando se pretende criar uma moral, aí se pretende criar uma ideologia. Se pretende criação uma relação de trocas comunicativas e de convenções que dependem de si e que e se disfarçam de uma relação entre coisas, não entre sujeitos, principalmente quando se leva em conta o “aquele que leva adiante a causa do proletariado é bom, e aquele que a retarda é mau.”.

    Este nunca pode ser um princípio moral, nunca, pois é este tipo de estrutura moral, baseada num certo e num errado onde todo o restante se estrutura sobre, que leva consigo o germe da pura alienação e da ideologia. Moralmente, é impossível decidir um certo e um errado, mas a tarefa comunista não é decidir qual é o certo conveniente, mas sim, denunciar todas as farsas que pretendem fornecer um certo e um errado.

    O que eu quero dizer é que a produção de uma moral é um ato tão ideológico quanto a manutenção de uma moral vigente produto de uma ideologia de classe.

    ———-

    Sobre o exemplo de Robin Hood e a crítica a moral burguesa: isso não foi um argumento. Veja: nenhuma moral trabalha com oposições simples: essas oposições precisam de um dado contexto para ter uma validade. Tudo depende do peso dos atos dentro da situação. É óbvio que todo burguês vai achar o Robin Hood um cara legal, já que seu roubo se dá aos aristocratas e não acharia se seu Roubo se desse nos burgueses. É uma questão de pesar o ato dentro de seu contexto histórico-social. Da mesma maneira, proletário nenhum gostaria de um Robin Hood que roubasse do proletariado para dar ao Lupenproletariat.

    Não há sentido em dizer que sempre, em qualquer análise das morais “metafísicas” (e qual não é? Um moral materialista precisa da fundamentação metafísica do materialismo para funcionar) o Robin estaria errado. Isso não é verdade, já que o roubo para ser roubo precisa ser uma ação contra uma ethos que valoriza a propriedade privada como fruto de um processo de compra legítima ou posse legítima de meio de produção. Um roubo contra a aristocracia não é o mesmo roubo num sociedade industrial contra um capitalista: a palavra é a mesma, sua posição dentro do sistema de moral e seu significado mudaram.

    • Rodrigo 21 de abril de 2013 às 23:41 #

      A moral não pode ser “usada” por alguma coisa, nem mesmo existe uma moral universal; ela é reflexo da sociedade, que tem bases materiais, não metafísicas, como estrutura política, econômica e social. Não deveria ser estranho a um marxista o conceito de natureza classista do Estado e o fato de que tal natureza também atinge a ideologia, entre elas a moral. Portanto, existem várias morais: a burguesa, a aristocrática, a escravocrata, assim como também existe a proletária. Parece que você não leu direito o trecho “Para compreender este fato e como este sistema moral funciona, nós devemos compreender que as questões morais não existem enquanto algo ideal e que a resposta adequada a estas questões é baseada tanto na situação material do contexto em que se inserem quanto no interesse de classe do agente moral propriamente dito”.

      O comunismo é, sim, uma libertação gradual do capitalismo, mas também ao mesmo tempo precisa de limites bem definidos. Um novo sistema organizado e regrado, surgido a partir do desenvolvimento da ditadura do proletariado, obviamente faz surgir uma nova moral (uma moral de novo tipo, melhor dizendo, diferente daquela que simplesmente é composta pela negação da moral burguesa – atitude que faz parte da negação da ordem social imposta pela burguesia). Essa moral específica pode, ou não, por exemplo, transformar em crime o que antes não era e descriminalizar o que antes era considerado criminoso. As últimas palavras do artigo tratam exatamente disso. O problema não reside na influência ideológica exercida sobre uma sociedade, pois isso sempre irá acontecer. Além disso, o autor do artigo não quer impor um código moral específico, cheio de regrinhas, pois define a moral proletária em termos mais genéricos (e, o que é importante lembrar também, sem fugir para o idealismo): “O revolucionário deve encontrar um equilíbrio entre as ações realizadas em nome da revolução e os custos destas ações no que tange a alienação para o proletariado, como um representante e defensor desta mesma classe.” Vai nos dizer que isso está errado também?

    • Coletivo Bandeira Vermelha 3 de maio de 2013 às 04:01 #

      Boa noite, Vinícius, tudo bem? Agradeço por ter comentado meu texto.

      Confesso que me peguei diante de um dilema pessoal entre responder ou não o seu comentário, uma vez que todas as bobagens que disse nele foram categoricamente refutadas no meu texto antes mesmo de você dizê-las. De qualquer forma, optei por responder tais comentários, por ser importante mostrar quais são os erros grosseiros apresentados por seu discurso. Vamos lá!

      Você começa assim: “Eu discordo em quase todos os pontos. A moral nunca deve ser usada pelo comunismo, pois o comunismo, em última instância, é uma libertação e não um aprisionamento.”

      Ora, se não é o bom e velho niilismo Marxiano-Trotskyista que entende toda moral como sendo “aprisionadora” e “reacionária”! Ora, o próprio imperativo revolucionário é um imperativo moral, uma vez que preconiza libertar a classe trabalhadora da exploração, que é inerentemente imoral, por ser feita em seu prejuízo! A moral, ao contrário de ser cerceadora, limitadora e aprisionadora, como você diz, é um conjunto de valores baseados em condições materiais que, em última análise servirão à vanguarda revolucionária como mastro e leme de suas ações, uma vez que estas visam resultados positivos para o proletariado. A definição de “moral” como algo “aprisionador” é uma característica de movimentos e correntes niilistas, contrarrevolucionárias e burguesas, característica esta que deve ser veementemente combatida pelos comunistas, uma vez que a ausência de um sistema moral pode e vai culminar em um agravamento da alienação sofrida pelo proletariado, bem como em um pensamento vulgar de que “os fins justificam os meios” e no individualismo burguês. Tal postura não é senão um outro sistema moral, um sistema moral individualista, anárquico e niilista.

      Depois, mais para a frente, você diz que não é possível ter uma moral livre de concepções metafísicas (pois, segundo você, a moral é algo de per se metafísico), uma vez que mesmo a moral materialista precisa de mecanismos metafísicos para funcionar. Isto é uma falácia que foi facilmente refutada em meu texto. Leia o trecho em que eu disse que “(…) nós devemos compreender que as questões morais não existem enquanto algo ideal e que a resposta adequada a estas questões é baseada tanto na situação material do contexto em que se inserem quanto no interesse de classe do agente moral propriamente dito.” Uma ação revolucionária, quando desprovida de uma moral que a guie, deixa de ser revolucionária, passando a ser apenas um ato de vandalismo ou de terrorismo individual. Mais uma vez, nós vemos o pensamento idealista e niilista de esquerda posmoderna permeando o seu discurso. Tal discurso não é algo válido em uma discussão entre comunistas, pessoas que adotaram a dialética materialista não apenas como guia filosófico, mas também como um aporte científico.

      Por final, você alega que qualquer burguês acharia Robin Hood “legal”, uma vez que os furtos de Robin Hood são perpetrados contra aristocratas, e não contra burgueses. RISÍVEL! O primeiro ponto onde este seu último comentário peca é ao afirmar que os burgueses não vêem problemas no fato de Robin Hood furtar de aristocratas, e não de magnatas industriais. Você não se ateve à dinâmica da contradição entre classe dominante e classe subjugada. Uma vez que os aristocratas eram a classe dominante da época, a lógica burguesa preconiza uma condenação das ações de expropriação perpetuadas pelo personagem supracitado, uma vez que a burguesia é hoje a classe dominante; a questão da analogia de Robin Hood se dá no contexto da legitimidade da propriedade privada dos meios de produção — algo presente tanto no sistema feudal quanto no capitalismo contemporâneo — e um analista burguês não se abstrairia de tal fato. A dinâmica da luta de classes e da contradição antagônica entre oprimido e opressor é categoricamente ignorada pelo seu discurso, assim como são ignoradas as condições materiais que originaram a justificativa moral para os atos cometidos pelo personagem central da história. Feitas as devidas observações, conclusões bastante óbvias são tiradas. O segundo erro — aparentemente proposital — cometido em seu último comentário é o de ignorar a adaptação que fiz da história de Robin Hood às circunstâncias atuais. Creio que tenha feito isso com o intuito de tornar seu contraposto ao meu texto suficientemente convincente, sem se ater à dinâmica oferecida por ele e, assim, criando espantalhos para atacar o que nele foi dito.

      Em nenhum dos casos você se ateve ao que eu disse, mas procurou sempre desqualificar meus argumentos através de espantalhos, ao invés de refutá-los sob uma ótica materialista. A sua afirmação de que a moral (usa o termo no singular e de forma universal, como se “moral” fosse um conceito monolítico) é “aprisionadora”, que o comunismo não pode e não deve ter um sistema moral e que toda moral necessita de premissas metafísicas para poder funcionar é simplesmente patética. Ao negar um sistema moral, automaticamente assume-se outro. Em outras palavras, a negação de um sistema moral constitui um sistema moral em si. Peço que se atenha às premissas de que dispõem nossos artigos antes de tentar refutá-los.

      De toda forma, agradeço por ter comentado em meu texto.

      Atenciosamente, Augusto César Mazdaki.

  2. Luiz Alberto Greff 21 de abril de 2013 às 06:07 #

    Parabéns, ao articulista! Em resumo, a questão moral burguesa reside em que o maior medo de qualquer ladrão – no caso o ladrão burguês – é ser roubado e, para o ladrão burguês, o único e inequívoco ladrão capaz de roubá-lo é o comunista, proletário consciente, que vê na imoral propriedade privada burguesa, toda ela produto de roubo dos frutos do trabalho proletário, o meio de perpetuação de sua escravidão; por isso, luta tenazmente para expropriá-la e torná-la coletiva. Assim, não há para o ladrão burguês perigo maior, porque ele sabe que pode comprar todos os outros ladrões burgueses que desejem sua propriedade: transforma-os em sócios. Menos o comunista, incorruptível pela consciência e moral proletárias, mesmo diante da morte. Daí, advém a hipocrisia burguesa, a mentira que contraria a sua própria moral, outro extenso constituinte da moral burguesa, de que o comunista rouba até a mulher do proletário inconsciente. E por que, justo, a mulher? Porque, na moral burguesa, mulher é propriedade, meio de procriação. Como os burgueses adoram desfrutar a propriedade do seu concorrente, preferem a mulher dele, “corneando-se uns aos outros” como consta no Manifesto Comunista, de Marx e Engels. Conheço burguês que usou sua mulher como moeda de troca, algo normal para a moral burguesa. A mulher proletária, nem de longe, participa dessa patifaria moral. Muito menos os Comunistas. Confundir indecente moral burguesa com elevada moral proletária, afora materialismo dialético com idiotice metafísica, é desprezar a razão, como fez o primeiro comentarista, tentando um imoral contrabando ideológico, típico burguês, justamente aqui, entre Comunistas e leitores sérios!

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